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A devastadora morte dos Bryant

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

Tragédia na Califórnia é dessas que fazem perguntar sobre o sentido das coisas

Têm sido tantas as homenagens comovedoras, tantos os instantes tocantes, tamanha a dor que tomou conta do planeta bola que tudo parece perder o sentido.

Kobe Bryant, aos 41 anos, ao menos, cumpriu genialmente o papel que escolheu desempenhar entre os mortais, embora, já se desconfiava, ele não fosse um deles. Basta ver a comoção vivida pelo mundo com seu aparente desaparecimento.

Graciliano Ramos também não escreve mais, Tom Jobim não compõe faz tempo, mas, como Kobe, estão aí, a cada instante, para sempre.

Vão-se os homens, ficam as obras, os legados. Disponíveis num toque do dedo sensível, para o olhar curioso, o ouvido sedento, o coração machucado, o cérebro em busca do enriquecimento.

Quem acha que Heitor Villa- Lobos morreu está perdido. Ou John Lennon, Mané Garrincha, Sócrates, os dois, Steve Jobs, o que aperfeiçoou as possibilidades dos dedos capazes de trazer a magia em simples teclar.

Antecipemos: Pelé jamais morrerá.

Mas Kobe levou com ele a pequena Gianna, de apenas 13 anos. Aí não há consolo possível.

Porque ela tinha a vida pela frente e não pôde, como o pai, “jogar basquete com a fome de quem precisava conquistar tudo em uma noite”, como disse o jornalista André Kfouri, na ESPN.

O 8 que Kobe imortalizou é o número dos segundos que o quinteto tem para sair de sua meia quadra e entrar na do adversário. O 24 que ele também tornou eterno indica a secundagem que o time tem para completar o ataque.

Descobrimos que Kobe não tinha adversários, só admiradores. Mas Gianna não teve nem seus 24, nem seus 8 segundos, para extasiar os fãs.

Antigas imagens inundaram todas as telas com as cenas de filha e pai. Frases marcantes se repetem sem parar pelo mundo afora. Jogadores de futebol, como Neymar, tenistas, como Novak Djokovic, músicos, artistas, Barack Obama, todos buscam uma forma de dizer o indizível, sempre de modo singelo.

O que se viu nos ginásios da NBA nos Estados Unidos dá a dimensão da perda, impossível dizer onde comoveu mais, sob aplausos, em pé, de dezenas de milhares de pessoas.

O sorriso de Gianna insiste em querer ficar, por mais inevitável que seja o seu lento apagar.

A morte de crianças, e no caso foram três, porque duas companheiras do time do Mamba Sports, Alyssa Altobelli e Payton Chester, também estavam no helicóptero, é dessas tragédias que exigem resposta, como a de que cada um tem seu tempo e o delas expirou.

Daqui a 50 anos Kobe Bryant seguirá lembrado, como tantos gênios em seus ofícios, sempre reverenciados.

Você nunca viu Didi, o Príncipe Etíope, fazer um lançamento, criar uma folha-seca, e, no entanto, sabe dele, até sente saudade do que não viu. E olhe que ele viveu quando a possibilidade de ter todas as suas imagens não existia.

Impossível pensar em Vanessa, a viúva, e nas irmãs Natalia, 17, Bianka, 3, e Capri, de apenas 7 meses, sem profundo pesar.

A bola laranja seguirá seu curso para manter viva a memória de Kobe. Hoje mesmo veremos um lance espetacular e nos perguntaremos se ele não fazia ainda melhor.

Kobe virou lenda.

Pena que Gianna, a Gigi, não terá mais a bola em suas pequenas mãos para nos deliciar. Daí ser imprescindível pensar nas nossas crianças, como lembrou Pelé ao fazer mil gols, as que passam fome ou morrem vítimas das balas achadas do Estado insensível.

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