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Retrocesso fumegante de três décadas

Da FOLHA

Por MARCELO LEITE

Alemães demoliram o Muro da Vergonha. Bolsonaro brinca com fogo para erguer o seu entre brasileiros

A fumaça do tempo se dissipa em Berlim, que está para celebrar 30 anos da queda do muro que a dividiu e envergonhou o mundo por outras três décadas, quase (1961-1989). No Brasil, ela se espessa.

Berlim inteira cheirava a enxofre, na passagem do outono para o inverno de 1988-89. Usava-se muito carvão para aquecer as moradias, briquetes fabricados a partir do linhito, uma forma inferior do mineral fóssil (em alemão se diz “carvão marrom”).

Esse odor era mais forte, pungente mesmo, na parte oriental da cidade dividida pela Guerra Fria. Ajudava a compor, na imaginação e depois na memória, uma representação lúgubre do que o socialismo esclerosado tinha a oferecer para milhões de alemães orientais enclausurados na República Democrática Alemã (RDA).

O muro se foi, e com ele o cinza tingido de vermelho de Erich Honecker et caterva. A Alemanha reunificada se encheu das cores ocidentais, ainda que sombras protonazistas se projetem desde o leste com a Alternativa pela Alemanha (AfD, na língua do país).

Em 2017 a nação dirigida por Angela Merkel já havia reduzido em 27% suas emissões de CO2 e outros gases do efeito estufa. No setor de energia, foi além: 30%. Tem planos de eliminar o carvão da matriz até 2038, mas há dúvidas quanto à meta ser exequível.

Berlim não recende mais a enxofre. A fumaça que incomoda os alemães está na Amazônia, adensada pelos ventos malsãos que sopram de Brasília.

“Bolsonaro envia o Exército”, diz a principal manchete deste domingo (25) no “Frankfurter Allgemeine Zeitung”, diário mais influente do país.

A quase 10 mil km de distância, alemães conseguem enxergar o que milhões de brasileiros se recusam a ver: o presidente da República, antes mesmo de se eleger, deu carta branca para fazendeiros incendiarem o país. Em sentido figurado e literal.

Fogo, de resto, é o que eles mais conhecem. Queimadas eram instrumento da agricultura tropical sul-americana antes mesmo de portugueses e espanhóis aparecerem, mas as coivaras dos índios eram controladas para limpar e adubar o quintal de plantio.

Com o desmatamento e a pecuária, queimadas se converteram em meios para eliminar a floresta derrubada (a matéria vegetal úmida reunida em leiras precisa secar para pegar fogo). Também servem para limpar pastagens de detritos e insetos.

Com frequência as chamas saem do controle e correm pelo chão da floresta em pé, nos anos de maior estiagem, iniciando um ciclo vicioso de ressecamento e inflamabilidade. Em qualquer caso, onde há fumaça há contribuição para o aquecimento global.

O Brasil inflamado de hoje se parece muito com o de 1988-89. A polarização anti-Lula que levaria à eleição de Fernando Collor, e ao desastre que se seguiu, pôs no Planalto Jair Messias Bolsonaro.

Diferença crucial: Collor homologou os 94 mil km2 da Terra Indígena Yanomami, enquanto Bolsonaro promete não demarcar nem 1 cm2 desses territórios reconhecidos como direito originário dos povos ancestrais.

Isso diz muito sobre como encara a Amazônia. Embora capitão reformado por incompatibilidade com a hierarquia militar, o presidente retrocede à mentalidade dos generais que deram o golpe de 1964 e inventaram a doutrina da soberania ameaçada da Amazônia.

Terras indígenas, segundo a óptica verde-oliva, constituiriam o germe de enclaves independentes no território nacional, verdadeiras cabeças-de-ponte para a internacionalização da floresta. Até mapa falsificado de um “Território Internacional Antes Conhecido como Amazônia” se produziu, tetravó das fakes news que a família Bolsonaro reenvia pelas redes sociais.

Nesse delírio há lugar até para dizer que ONGs da quinta coluna da melancia (verde por fora, vermelha por dentro) estariam tocando fogo na mata só para prejudicar o governo direitistaEmmanuel Macronseria o chefe dessa Internacional Ambientalista Criptocomunista.

Europeus estão fazendo a coisa certa com sua revolução energética, mas soa dispensável seu bom-mocismo verde temperado de colonialismo. Se realmente preocupados com o carbono, ameaçariam com sanções contra a Rússia pelos 260 mil km2 de floresta em chamas na Sibéria neste ano.

O erro europeu, entretanto, não faz de Bolsonaro um acerto. Merece descrédito um presidente que calunia um órgão federal –o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)– reconhecido no mundo por seu sistema para monitorar desmates e queimadas com imagens de satélite.

Os focos de fogo brasileiros registrados por sensores em órbita da Terra já estão 35% acima do que se viu nos primeiros oito meses de todos os anos desde 2010. Só não bate a média das décadas anteriores porque ela foi inflada pelos desastres de 2004 e 1994 (respectivamente, 28 mil km2 e 29 mil km2, contra 4.200 km2 em 2012).

Este é só o começo da estação de queimadas na Amazônia. Vem uma tempestade de fogo pela frente, e só os cegos não querem ver –embora alguns aplaudam o envio do Exército para combater chamas que supostamente não existem.

Alemães, juntos, demoliram o Muro da Vergonha. Bolsonaro brinca com fogo para erguer o seu entre brasileiros.

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