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R7 entrevistou o Blog do Paulinho

Paulinho trabalha em sua própria casa
Paulinho trabalha em sua própria casa

DE MILTON NEVES A ANDRES: JORNALISTA COLECIONA POLÊMICAS E PROCESSOS

Do R7

Por EUGÊNIO GOUSSINSKY

https://esportes.r7.com/futebol/de-milton-neves-a-andres-jornalista-coleciona-polemicas-e-processos-17062019

Criador do blog do Paulinho, Paulo Cezar de Andrade Prado ficou conhecido por suas denúncias

Ele não tem receio de chamar uma pessoa de enganador, laranja e insinuar até algum crime mais grave, em seus textos. Publica e sente um natural frio na barriga, típico de quando alguém faz algo e não tem mais como voltar atrás. Mas respira fundo e segue em frente.

Muitas vezes, se lembra da mãe, Teresinha, uma mulher simples, que o ensinou a ler antes mesmo que ele, o menino Paulo Cezar Andrade Prado, o Paulinho, entrasse na escola.

Paulinho sempre foi corintiano
Paulinho sempre foi corinthiano

Teresinha teve um AVC em seus braços, aos 60 anos. Ficou mais uma semana no hospital, antes de morrer, em 2001, sem tempo para ver o filho criar um dos blogs mais polêmicos do Brasil, o blog do Paulinho, onde ele publica todos os tipos de denúncia, a maioria ligada ao futebol. Hoje, aos 47 anos, Paulinho tem em mente que segue um ideal da mãe.

“Amava minha mãe, responsável pelo alicerce da minha formação de caráter… incapaz de um desvio de conduta… um grande exemplo… uma grande mulher”, diz.

Paulinho reconhece que, no ímpeto de atingir seus objetivos, já exagerou bastante nos adjetivos. E afirma que está buscando contê-los – os adjetivos, e não os objetivos. Chamado de louco por aqueles que querem desacreditá-lo, mantém sempre um ar de inabalável e, a cada post, considera que está cumprindo sua missão de defensor da verdade.

É neste limiar, entre a tranquilidade e a tensão, que ele caminha. Tornou-se conhecido desde que estreou o seu blog, em 2006. As denúncias já lhe custaram duas prisões, além de ameaças rotineiras.

Cinema, Corinthians e bichos de estimação

Corintiano, morador da zona leste, ele divide a paixão por futebol com o gosto pelo cinema. Que passou para o seu filho, Mike, de 27 anos, produtor de rádio e de TV, especialista em cultura nerd. Paulinho cita filmes como “O Galante Mr. Deeds”, de Frank Capra (1936), “A Lista de Schindler”, “O Poderoso Chefão”, entre tantos que o marcaram.

Em relação aos seriados, vê inclusive uma semelhança entre ele e o personagem central do Arquivo X, série cujo tema é o toque do celular de Paulinho.

“Meu trabalho é meio Fox Mulder (investigador, interpretado por David Duchovny), solitário, por vezes desacreditado pelos que objetivam esconder a verdade.”

Como uma criança ingênua, diferentemente do seu lado desconfiado, ele mantém certa obsessão por seus gatinhos Miazinha, Florzinha, Juma, Pipico e Bem; cachorros Bloguinho, Solzinha (que chama de Bloguinha), Thor e Luke e passarinhos Amy (passarinha) e Elvis, embalado no conceito de que são os bichos que se portam como guardiões da pureza perdida por muitos humanos.

Mas, ao contrário do que se pode imaginar, o estilo de Paulinho é muito mais cordial do que revoltado. As palavras cheias de veneno também parecem ser uma maneira dele buscar o protagonismo e chamar a atenção para alguma carência. Um desejo de reconhecimento.

Tanto que ele não esconde sua tristeza por não poder mais frequentar o Corinthians, clube ao qual ia com sua mãe na infância. Mas do qual, após ser sócio por anos, foi expulso.

“Adorava frequentar o Corinthians, mas por conta do blog os dirigentes não me deixam mais entrar lá… uma pena. Fui expulso pelo Andrés (Sanchez, presidente do Corinthians). A justificativa era a de que não atualizei o endereço… porém, até o dia da expulsão, minha mensalidade estava em dia… e eu pagava por boleto enviado à minha residência… ou seja… na verdade eles achavam que eu teria dificuldades em conseguir informações sem frequentar o Parque São Jorge… pura burrice.”

Para compensar as frustrações, Paulinho gosta de desfrutar dos chamados prazeres da vida. Sem se sentir acusado.

“Gosto de vinho (italiano), uísque e cerveja… não existe nada comestível de que eu não goste, mas prefiro churrascaria, comida italiana e japonesa. Gosto também de dirigir sozinho, para pensar, mesmo sem ter lugar específico para ir.”

Processos e perseguições

Esses momentos se contrapõem às turbulências do dia a dia. Paulinho acumula diversos processos. Conta até que foi perseguido por um detetive particular, a mando de um dirigente. Mas, mesmo tendo sua vida limitada em muitos aspectos, o jornalista afirma que se esforça para que seu trabalho não seja afetado.

“O preço (do trabalho) são as ameaças…a pressão para que eu seja prejudicado, de alguma maneira, na profissão… as intimidações por meio de ações judiciais… de fato, não é fácil aguentar… mas, por conta de minha história de vida, da personalidade, talvez tenha chegado ao jornalismo com o “couro grosso”… posso dizer que a satisfação do dever cumprido, proporcionada pelo meu trabalho, supera o medo de ser atacado com covardia”, diz.

Ele mora na zona leste da capital paulista, onde passou a maior parte de sua vida. O prédio é estilo classe média, em uma parte residencial do bairro que também mistura comércio e indústria. Ao entrar no local, como já fez em outros lugares menos privilegiados, em que morou, Paulinho costuma se certificar de que não está sendo seguido.

Ao chegar ao amplo apartamento, pelo menos uma vez por semana encontra Mike e, diante da pressão sofrida por seu trabalho, sente-se mais relaxado, dividindo uma pizza e conversando sobre amenidades com seu filho.

Paulinho trabalha sozinho, em sua casa. Passa boa parte do dia no telefone, trocando mensagens. Não é raro sair de casa para ir pegar algum documento misterioso. Apenas, quando sai, não se esquece de olhar para os dois lados.

“Eu acordo todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados, entre 03h30 e 04h… tento colocar as notícias no ar até, no máximo, umas 06h30… daí vou tomar café e retorno para monitorar e bombar meu blog nas mídias sociais… depois do almoço, mas às vezes também pela manhã, passo a preparar o blog para o dia seguinte… quando posso, durmo às 22h… às vezes não dá.”

Servidor nos Estados Unidos

Mas em sua atividade, há um momento em que não é possível planejar, conforme conta.

“À tarde é que minha vida fica indefinida, porque é o período, em regra, que tenho (também à noite) para buscar novas informações.. ou seja, nunca sei o que vou fazer ou onde estarei.”

Quando dorme mais tarde, ele muda um pouco a rotina. Mais pelas atribuições do que pelo receio de algum ataque.

“Quando ultrapasso esse horário (22h), no outro dia, após colocar o blog no ar, dou uma cochilada pela manhã para recuperar….não ando com seguranças, nada disso… levo uma vida normal… apenas evito de frequentar sempre os mesmos lugares, evitando, assim, possíveis ataques.”

Cabelos raspados, olhos claros, com voz fina e jeito inocente dão a impressão de alguém discreto. Mas ele não mostra receio em ser visto por uma parcela da opinião pública, no mínimo, como imprudente. Para evitar bloqueios do seu site, tanto do ponto de vista jurídico quanto pela ação de invasores, ele já teve um servidor até na França. Hoje, o mantém na Califórnia, Estados Unidos.

“É o único lugar que não derrubaram… no da França invadiram e perdi meses de postagens…”

Paulinho garante que, em todas as suas denúncias, embasou-se em provas. Mas admite que cometeu alguns erros. Raros, segundo ele.

“Erros de informação foram pouquíssimos, em treze anos no ar… todos devidamente apontados, com os respectivos pedidos de desculpa… o blog não tem compromisso com o erro e, quando ele acontece, é reparado… o mais famoso ocorreu por conta de uma armação de gente do Corinthians, quando noticiei que Andrés e Ronaldo (ex-jogador) estiveram numa boate… assim que o equívoco repercutiu pedi desculpas a ambos, publicamente, aos leitores, e retirei a postagem do ar.”

Maior tensão e prisão

Em sua lista de denúncias, um dos seus maiores alvos é o presidente do Corinthians, Andrés Sanchez. Nos últimos dias, tem afirmado que o jornalista Mauro Naves é sócio de ex-advogado da modelo que acusa Neymar de estupro.

Ele também já tirou árbitro de um jogo, ao revelar na véspera que havia algum vínculo do profissional com um dos clubes. Seu estilo mordaz contrasta com sua fala tranquila e um tanto tímida. O momento de maior tensão ocorreu em uma eleição no Corinthians, em 2009.

“Em raras oportunidades (houve ameaça física), quase todas ocorridas em estádio de futebol, apesar de a mais grave delas ter acontecido em duas oportunidades, em meio às eleições do Corinthians, solicitei escolta da PM para conseguir deixar os locais sem ser agredido, ou coisa pior.”

Paulinho já teve outros problemas por “adjetivar”. Muitas pessoas se consideraram ofendidas e ele já foi parar atrás das grades em duas ocasiões. Na última, em novembro de 2018, ele conseguiu publicar no site, antes de ser levado. Disse, às pressas, que estava sendo “vítima de mais um ato de violência contra a imprensa do Brasil”. Havia sido condenado por ironizar o jornalista Milton Neves.

“O período preso é sempre sofrido, vivido sob condições adversas…o pior, talvez, além da falta de informações (ainda mais para quem vive antenado, como eu) é ver minha esposa, Fernanda, se sujeitar às humilhações do sistema para realizar as visitas.”

Paulinho ficou pouco mais de um mês preso, na última vez. No cárcere, sentiu na pele a indignação que o levou a, após um período de indefinição, se tornar jornalista, aos 34 anos. Até então, trabalhara como motoboy, onde diz ter aprendido a lidar com muitas adversidades, ganhando o que chama de “casca grossa.”

Indignação no colégio

Atrás das grades estava o mesmo menino que se apaixonou pelo Corinthians em maio de 1980, após o time ser goleado pelo Vasco da Gama, no Maracanã, com 5 gols de Roberto Dinamite.

“Foi amor, talvez, por ver aquela equipe sendo goleada, mas, ainda assim, nunca deixando de lutar…por conta disso, fiz minha mãe associar-se ao Corinthians, clube que frequentava constantemente…chegava ao clube pela manhã, assistia ao treino, e, somente ao final procurava garotos da minha idade para brincar… depois, perto das 16h, voltava para ver o treino da tarde… para desgosto do meu pai e do meu irmão, ambos são-paulinos.”

Naquele momento, diferenciou seu gosto futebolístico em relação ao pai Emygdio e irmão, Márcio, um ano mais novo. Ambos moram hoje em uma cidade do interior paulista. Por parte de pai, ele ainda tem os irmãos André e Amanda.

“Com meu pai e irmão possuo um relacionamento mais distante (eles moram noutras cidades), mas cordial.”

E, apesar do sofrimento, enquanto podia ver sua sombra na parede, a cela foi uma oportunidade dele projetar sua infância e rever alguns destes momentos. Desde cedo, Paulinho foi movido pela indignação.

“Meio que inconscientemente, tinha essa preocupação desde cedo, de confrontar o que considerava injustiça…lembro que estudei, até a 5ª série, em Colégio de Freiras, o Santa Maria, no bairro do Pari (zona Norte de São Paulo)… a rigidez das regras, algumas preconceituosas, quase sempre colocavam-me em defesa de alguém que julgava, estaria sendo humilhado, etc… frequentei bastante as salas punitivas do colégio por conta disso.”

Após descobrir uma nova paixão, o jornalismo, ele se formou na faculdade Uninove. O blog já havia crescido, após ter começado de forma despretensiosa, quando ele frequentava o Corinthians e queria trazer notícias sobre o clube.

Paulinho conta que começou a observar muitas coisas erradas e passou a publicá-las. Depois foi estendendo essa iniciativa também para outros clubes, acumulando fontes na polícia, na Justiça e até fora do Brasil. Tendo um público básico de 30 mil leitores (que podem chegar a 200 mil, dependendo do impacto da informação), ele diz que vive com recursos módicos.

“Sobrevivo da publicidade do blog, do aluguel de uma propriedade e de algumas doações de leitores… Fernanda (esposa) é enfermeira e também ajuda a manter a família.”

Mágoas e audiência

O jornalista fala com inconformismo sobre os trâmites que o levaram à prisão do Tremembé.

“Pode-se até discutir que eu não deveria ter tratado as pessoas que me processaram de maneira jocosa, como tratei… mas é inadmissível que alguém seja preso por fazer uma piada ou ser irônico numa postagem… que se recorra à esfera civil para reparações, apesar de ainda ser contrário à ideia, até compreendo…agora, tratar esse tipo de assunto como crime, e, pior, mandar prender um jornalista que vive de publicar notícias e expressar opinião é um grande absurdo.”

Após voltar para casa, Paulinho decidiu baixar o tom em várias situações. Mas não irá deixar de denunciar, segundo diz.

“Minha vida no blog não mudou muito por conta delas (as prisões), a não ser um cuidado ainda maior com o que escrevo.”

E completa, citando sua maior referência profissional, o jornalista Juca Kfouri, que criticou sua prisão. Antes mesmo de se tornar jornalista, Paulinho havia dedicado a Kfouri uma comunidade no antigo Orkut.

“Por sorte, ou talvez fruto do entendimento de leitores que me acompanham há anos, e de outros que me descobriram por conta da repercussão, a minha audiência aumentou. Sou grato a todos os que se solidarizaram com o meu caso, entre os quais o Juca Kfouri, referência no jornalismo.”

Timão acima de tudo

Sem poder mais entrar no Corinthians, Paulinho vive o clube de outra maneira, por meio do trabalho. É uma forma também de relembrar os momentos que passou com a mãe. Cada denúncia, no fundo, é como se fosse uma mensagem para ela.

“Não viveu para ver o blog no ar, mas tenho certeza de que estaria orgulhosa…”

Nesta batalha diária, colocando-se como um Dom Quixote – para uns lunático, para outros idealista – Paulinho se isolou de muita gente, foi limado. Sentiu. E aprendeu a lutar até para não deixar de ser corintiano, mesmo tendo sido excluído do seu clube de coração.

Vive, com isso, em permanente embate entre o seu passado lúdico e sua realidade permeada por risco, delegacias e ameaças. Odiado por muitos no clube que ama.

Manter-se corintiano, com isso, é uma forma de manter vivo aquele ideal de outrora, quando ele achava a vida bela, nas alamedas do Parque São Jorge. É também um tipo de combate, entre amor e ódio. Neste sentido, o futebol não é apenas uma ilusão, é uma forma dele continuar acreditando em algo.

“Adoro futebol, principalmente quando bem jogado… por isso não deixo de ver Lionel Messi jogar… Sigo torcendo para o Corinthians, sem o fanatismo de torcedor, mas ainda com muito amor… quando o Timão entra em campo, naqueles 90 minutos esqueço o que acontece nos bastidores.”

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