Advertisements

Três gols a favor do Brasil

De O GLOBO

Por MARIA RIBEIRO

Nos dias tristes, quando o Estado extermina pretos e pobres dentro e fora de presídios, ou soterrados sob lama e milícias, é a arte que me mantém de pé

Três dias antes de perder pro Bahia, no último domingo, a gente tinha ganhado de quatro a um do Atlético Nacional. E daí?, você me pergunta, sem se importar com o tanto de derrotas acumuladas no já pontuadíssimo cartão humildade do Fluminense. E daí?, eu te respondo, daí, que, as vezes, uma única vitória, umazinha que seja, pode ser capaz de produzir uma alegria tão pura e revolucionária que não há pragmatismo, Campeonato Brasileiro, passeata em Copacabana ou superministro que nos faça perder a esperança.

Tudo bem, eu sei que existe esse papo clássico de ópio do povo e coisa e tal, e não sou ingênua a ponto de acreditar que um placar sozinho possa virar de bate-pronto um jogo tão violento como esse que estamos assistindo desde o dia primeiro de janeiro. Mas, se na semana passada conseguimos, com esse rapaz Francisco Buarque de Holanda, finalmente marcar o primeiro gol na rede da nossa Alemanha particular, agora, nos últimos dias de maio, com o último Festival de Cannes, já contabilizamos três, e três… ah… três pode ser definitivo.

Perdi a conta de quantas vezes fui salva por um filme ou por uma canção. No cinema, “A felicidade não se compra”, “Deus e o Diabo na terra do sol”, “Frances Ha”, “Barry Lindon”, “Os incompreendidos”, “Sociedade dos poetas mortos”, “Manhattan”, “Terra estrangeira”, “Lua de fel”… Muitas vezes, já elaborei mais, imersa em duas horas de uma história sensível e bem contada dentro da sala escura, do que em anos e anos de divã freudiano matando e ressuscitando pai e mãe.

Nossos atacantes da semana, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles e Karim Aïnouz, foram responsáveis, respectivamente, por jogar luz sobre questões bastante específicas e caras à minha passagem por aqui. “O som ao redor”, de Kleber, e “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim e Marcelo Gomes, nunca saíram do meu HD, tendo o primeiro me clareado o fascismo, até então intuitivo, que eu identificava na ideia de condomínios, e, o segundo, traduzido, com perfeição, a poesia um tanto melancólica que sempre enxerguei nas estradas do meu país.

Quanto a Chico Buarque… bom, Chico Buarque, desde “João e Maria”, quando eu ainda era criança e já o ouvia dizer que agora ele era herói e o seu cavalo só falava inglês, desde então Chico é minha promessa de fé, meu último suspiro de amor, e, mesmo quando duvido de tudo, sigo de mãos dadas com meu ídolo tricolor. Ainda hoje, nos dias tristes, quando lembro que somos governados por aquele sujeito tão pequeno, ou quando vejo o Estado seguir exterminando pretos e pobres dentro e fora dos presídios, ou soterrados sob lama e milícias, ainda hoje é a arte que me mantém de pé.

Vamos entrar em junho tendo vivido um ano absolutamente trágico na terra brasilis. Brumadinho, Fallet, Muzema, Rocinha, Vidigal e Manaus são apenas alguns dos lugares cujos nomes estão manchados de sangue pela omissão e descaso de governos. Isso sem falar nos cortes na educação, nas pesquisas e no audiovisual promovidos pelo nada excelentíssimo senhor presidente. O prêmio Camões, concedido ao compositor carioca, e os prêmios do Júri e da mostra Un Certain Regard, em Cannes, não são apenas três gols importantes no sete a um diário do nosso povo. E, também, se forem, já é muito. Muito mesmo.

Tá sete a três. E amanhã tem nova manifestação contra os cortes na educação. Sigamos, Brasil. Rumo ao sete a quatro, quem sabe. O jogo só acaba quando termina.

Advertisements

Facebook Comments

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá, seja bem vindo ao Blog do Paulinho ! Deixe aqui suas dúvidas, sugestões e denúncias. Todas as mensagens serão lidas
Powered by
%d blogueiros gostam disto: