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Sidão é a mais nova vítima das redes sociais sem filtro

Da FOLHA

Por PAULO VINICIUS COELHO (PVC)

Caso precisa servir para reflexão da interação das redes com as mídias tradicionais

O episódio Sidão não deve provocar caça às bruxas.

Mas precisa servir para mais uma reflexão sobre as redes sociais, a interação com as mídias tradicionais e a necessidade de que estas sejam filtro.

Isso serve para eleição de melhor em campo, assunto estritamente técnico, que precisa da participação dos comentaristas.

Mas vale para outras situações, com hashtags turbinadas na internet, mas que não têm a mesma representatividade nas ruas.

Semanas atrás, na redação em que trabalho, debati uma dessas hashtags. Se 80% das mensagens postadas durante um programa de TV pedem a cabeça de um mesmo treinador, a lógica seria sair às ruas e perceber passeatas e bandeiras exigindo a demissão de tal profissional. Só que não.

A imprensa formal ainda precisa decifrar e entender o que é movimento exclusivo nas redes e o que de fato está nas ruas. As redes sociais podem até ter o poder de turbinar pensamentos na sociedade, eleger Donald Trump, fazer o pensamento conservador tirar o Reino Unido da Comunidade Econômica Europeia. Se ganharem essa relevância, a imprensa precisa diagnosticar. Se forem artificiais, também. Não pode a mídia tradicional ser o veículo para espalhar para o cotidiano o que só existe no mundo virtual.

Os exemplos citados acima são muito mais graves do que a eleição de um jogador como melhor em campo por pura sacanagem de alguns eleitores e por explícita maldade de outros que ocupam as redes sociais. O Twitter, especialmente, expõe a alma humana. Tem muita gente ruim e irresponsável.

Há também os robôs. Um estudo feito ano passado por usuários do Twitter ligados a um clube de futebol diz que de cada 800-1200 mensagens ofensivas, o emissor das mensagens tem apenas um endereço IP. Ou seja, uma mesma pessoa tenta passar a impressão de que a opinião pública pensa de uma mesma maneira.

Junto a isso, há quem trate de minimizar o papel da imprensa, tratando erros de informação como fake ​news. Há diferenças evidentes entre notícias falsas e erros de imprensa. Fake News é invenção. A imprensa tradicional tem a obrigação de apurar, checar, acertar e, num eventual erro, corrigir. Por isso, há seções de erratas em todos os grandes jornais do país. Médicos erram. Engenheiros, advogados cometem enganos. Jornalistas, também. Fake news é outra coisa.

Exatamente porque é necessária para a vida democrática, a imprensa precisa refletir sobre seu papel de filtro. Interagir com a sociedade por meio das redes sociais é excelente. Dar a elas a relevância de dizer o que é certo, qual o caminho a seguir, qual técnico deve ser contratado ou demitido, qual jogador deve ser eleito o melhor em campo é um equívoco grave e pode trazer consequências desastrosas.

Ninguém vai acertar sempre.

Aqui não vai nenhuma crítica a quem decidiu seguir o protocolo e entregar o prêmio de acordo com o regulamento pré-estabelecido. Este texto é apenas uma reflexão sobre a profissão que exerço e sobre os erros que cometemos todos, nestes tempos sombrios.

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