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Santos de todos os gols

Do ESTADÃO

Por UGO GIORGETTI

Filme conta a importância do time de Pelé e companhia no futebol brasileiro das décadas de 1950 e 1960

O filme começa com “ELE”. O antigo comentarista Mario Moraes não chamava Pelé pelo nome. Ao referir-se a ele, dizia simplesmente “ELE”. Provavelmente para não usar seu santo nome em vão. Sua declaração inicial, justifica todo o resto do filme: ninguém vai ao estádio para ver um zero a zero. Se for para empatar que se empate por quatro a quatro ou cinco a cinco. Esse é o tom do filme “Santos de todos os gols” de Lina Chamie, cineasta mais que respeitada, torcedora fanática do time da Vila.

De fato, é um filme que fala do respeito ao público que vai a campo, paga para isso e merece receber em troca um espetáculo de nível. Isso é respeito. Respeito também a uma maneira de jogar que começou com a geração “DELE” e seus incríveis companheiros de time e se estende até hoje. O Santos começou antes, é verdade. Mas a entrada triunfal do Santos de Pelé no futebol brasileiro, no final dos anos 50 até o final dos 60, se deu de modo tão marcante, tão estrepitoso, tão avassalador, que imprimiu sua imagem até nos torcedores de equipes adversárias.

Era comum naqueles anos torcedores de outras equipes irem a campo ver o Santos jogar. Meu irmão, corintiano, por exemplo, um domingo chegou encharcado de Pacaembu, sob chuva e lama. Tinha ido ver Santos x São Paulo, na tumultuada estreia de Pagão no clube do Morumbi.

A primeira vez que vi esse Santos diabólico no campo foi no primeiro jogo da melhor de três entre Palmeiras e Santos para decidir o campeonato paulista de 1959. Fui com meu amigo Roberto Rugiero até o Pacaembu e a experiência foi inesquecível. Lembro de um time entrando em campo todo de branco dos pés à cabeça, e, pela primeira vez essa cor, ou essa ausência de cor, me pareceu de algum modo ameaçadora. Ameaça que se desdobrou em campo. Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe, esse era o ataque.

A cada vez que atacavam em velocidade irresistível, trocando passe e fintas, o sentimento no estádio, pelo menos dos palmeirenses, era de puro pavor. O jogo terminou empatado, mas não tive coragem de assistir às outras duas partidas.

Reencontrei esse time que tinha ficado na minha memória no filme da Lina. E, surpreendentemente, pude vê-lo na sua integridade com imagens restauradas, creio, pois não há chuviscos, marcas de emendas e riscos, tão comuns em nossas cenas de arquivo. Essa qualidade de imagem é importante porque ajuda a ligar, sem interrupção, o Santos de ontem ao de hoje. E mostrar que a maneira de jogar ficou, e passou de geração para geração.

De fato, é impossível pensar num Santos defensivista, encolhido em sua área dando chutões e garantindo resultados como fazem times outrora de estilo tão técnico e capacidade de espetáculo quanto o Santos. Nenhum treinador chega ao Santos para “arrumar a casa”. Ao contrário, vem para desarrumá-la, jogar e deixar jogar e, se possível, encantar, como faz Jorge Sampaoli, não por acaso escolhido com treinador da equipe atual.

O filme da Lina se rende ao que o Santos produz de melhor em todas as épocas: gols. Estão lá os artilheiros sobreviventes e atuais a comentar seus feitos. Lina escolheu para comentários, além de jogadores, torcedores selecionados, intelectuais, artistas, jornalistas qualificados, tudo porque sua ambição também é explicar o fenômeno do gol e o sentimento que desencadeia em quem o faz e em quem o vê. O fenômeno parece inexplicável.

Acho, porém, que duas mulheres, Monica Waldvogel e, principalmente Barbara Gancia, praticamente desvendam o mistério. O filme é uma delícia para torcedores do Santos e de outros clubes. É, no fundo, um estudo sobre a beleza. Perdeu-se a beleza dos uniformes impecáveis, do um branco sem jaça, em que os negros, a se multiplicarem em campo, pareciam um só, como uma imagem que se fragmenta em muitas. Ficou, porém, uma maneira de jogar bola. Para sempre.

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