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Alarmismo dos pais em relação à internet não ajuda a proteger jovens

Da FOLHA

Por PAULA LEITE

Aos pais, resta tentar mostrar aos filhos as vantagens da vida offline, ainda que seja dificílimo dar o exemplo

A perspectiva de que nossos filhos possam estar frequentando fóruns na internet em que são expostos a conteúdos que incitam ódio, violência, misoginia e racismo causa pânico em muitos pais.

A deep web, essa entidade meio misteriosa, nada mais é que sites e fóruns um pouco mais escondidos “”por vezes é preciso navegador especial para acessá-los, ou não estão facilmente buscáveis no Google””, para evitar que sejam constantemente derrubados por autoridades ou pelas empresas que hospedam conteúdos e para melhor garantir o anonimato de quem os frequenta.

Seria, no entanto, por demais simplificar as coisas achar que crianças ou adolescentes tropeçam inocentemente nesse tipo de conteúdo e de alguma forma são influenciados ou levados a cometer ataques como o da escola em Suzano (SP), em que dois jovens mataram oito pessoas.

Como qualquer comunidade online, esses fóruns da deep web atraem aqueles que têm um interesse específico e encontram na internet seus pares, que por uma razão ou outra não acham na vida real.

Esse tipo de conexão mediada pela internet pode, e muitas vezes é, saudável. Jornalistas perseguidos por seus governos, por exemplo, podem trocar ideias sem terem suas identidades rastreadas.

Entusiastas de peixes beta do tipo crowntail também podem encontrar online outros aficionados, que dificilmente encontrariam na vida real. Grandes amizades que depois se transpuseram para a vida real começaram em comunidades de fãs de uma determinada banda ou de certa marca de carro.

Infelizmente, aqueles que nutrem sentimentos de rejeição transmutados em ódio ou pensamentos violentos também encontrarão, sem muita dificuldade, comunidades em que poderão conversar com outros que se sentem da mesma forma e podem chegar a trocar informações sobre como se armar e como planejar ataques, além de serem encorajados a cometer tais atos.

Quem procurar achará na internet tudo isso e muito mais conteúdo odioso, de pornografia infantil a vídeos de torturas, estupros e mortes.

Cabe às autoridades derrubar conteúdo realmente criminoso e processar os responsáveis, mas é ilusão achar que é possível limpar e policiar toda a web. Isso sem falar nas mensagens trocadas em grupos fechados, via celular.

Aos pais, resta tentar mostrar aos filhos as vantagens da vida offline “”ainda que seja dificílimo dar o exemplo, já que nós mesmos, adultos, somos sugados por redes sociais e assemelhados”” e proporcionar a eles a convivência em comunidades reais e saudáveis, seja família, escola, igreja, grupo escoteiro ou time de futebol.

Quanto à atividade online dos filhos, assim como monitoramos com quem eles andam na vida real, as “ruas” que eles frequentam na internet também devem ser objeto de conversas constantes.

Nada disso garante que seremos capazes de proteger nossos filhos de topar com conteúdo grotesco ou inapropriado.

No entanto, nem o alarmismo em relação à deep web, a vídeos do YouTube ou a videogames nem o descaso total em relação ao consumo online das crianças e adolescentes, solução adotada por muitos pais, vai nos levar a lugar algum. Não há panaceia, mas limites, monitoramento e conversa são um bom começo.

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