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Marielle, Bolsonaros e Witzel

Da FOLHA

Por LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHO

País é governado pelo pior tipo de gente que há

Saber que um dos “garotos” do presidente Bolsonaro é conviva da comunidade miliciana, tendo inclusive utilizado o mandato parlamentar para homenagear policiais criminosos com a medalha Tiradentes e honrarias típicas de repúblicas desmoralizadas, é mais um ingrediente para o quadro de incertezas que ronda a apuração do homicídio da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes em março de 2018.

Se a polícia, particularmente a do Rio de Janeiro, é violenta, corrompida e obsoleta —incapaz de cumprir protocolos mínimos de preservação de pistas e provas, sem inteligência e preparo científico para desvendar indícios e desempenhar seu papel—​, a atitude dos governantes é estranha, constrangedora.
É o que mostra a retrospectiva das declarações oficiais.

Em agosto (o Rio sob intervenção federal), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirma que a dificuldade de esclarecer o caso Marielle está no envolvimento de agentes do Estado e de políticos. Volta ao tema em novembro para dizer que testemunhas denunciaram uma articulação para atrapalhar a investigação. Não toma providências, menciona novamente a participação de “políticos poderosos”, mas sem identificá-los, e assegura que a Polícia Federal, sob sua direção, foi impedida três vezes de apurar as mortes.

A fala do secretário da Segurança do Rio de Janeiro, general Richard Nunes, em novembro, parece incisiva: alguns participantes do crime já estão identificados, mas ninguém é preso porque o objetivo é capturar todos; promete o encerramento das investigações até o fim da intervenção federal. Diz que “provavelmente” há político envolvido, mas não consegue explicar se os milicianos seriam mandantes ou executores. Em dezembro, anuncia que mataram Marielle porque ela incomodava a grilagem de terra.

O governo Temer chega ao fim, a intervenção federal acaba, o general volta para o quartel e nada de concreto se revela. Além da conversa fiada, o Judiciário entrou em cena para censurar a Globo: vazamento de informações é “deveras prejudicial”, afeta “o bom andamento das investigações”.

Em 2019, Wilson Witzel (símbolo da renovação política nacional, apoiado por milicianos e por quem adora milícias, como o senador Eduardo Bolsonaro) assume o governo carioca e, mesmo sem ter olhado os autos do processo, pois não seria atribuição sua, apregoa que os matadores de Marielle podem ser presos em janeiro.

Investigadores ouvidos em off pelo jornal O Dia asseguram que entre os assassinos há policiais da ativa, integrantes do Escritório do Crime, grupo que age nos “moldes” da “deep web” (“internet profunda”, ambiente de sites não indexados, que favorece o anonimato) e usam da tecnologia para dificultar o trabalho policial.

Cresce o número de mortes provocadas por agentes policiais. O país é governado pelo pior tipo de gente que há.

Enquanto assassinos de Marielle circulam pela cidade maravilhosa, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) anuncia que, diante das ameaças que atormentam sua vida, abre mão do mandato parlamentar e parte para o exilio voluntário —um “grande dia”, saúda o perfil oficial do presidente da República no Twitter.

O Brasil lembra frases de instalação do artista Luis Camnitzer, nascido na Alemanha e criado no Uruguai: “Vos tenés las balas y yo muero, vos explicás y yo no entiendo tu dogma” (Você tem as balas e eu morro, você explica e eu não entendo teu dogma).

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