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Pesquisa Datafolha mostra o futebol jogado para escanteio no Brasil

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Brasileiro parece farto de incompetência e corrupção, e isso inclui o esporte

O país mudou. Mudou com ele o brasileiro e suas paixões. E o futebol, quem diria, parece não ser mais uma das maiores. Bem, venho dizendo isso há bastante tempo. Que as pessoas sequer se interessam pelos estaduais mequetrefes, pelos amistosos da seleção, pela escalação dos jogadores, pela recuperação de Neymar.

pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta (4), foi um susto para quem acha que o futebol tem tanta relevância na vida das pessoas. E apenas uma constatação melancólica para quem observa de forma crítica tudo que gira em torno do assunto.

Segundo os dados, 41% dos entrevistados não têm interesse por futebol. Um crescimento de 10 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, feito há oito anos. Entre os que disseram ter grande interesse ouve uma queda de 32% para 26%. Parece uma pequena tragédia, e é, levando em conta que é o esporte nacional que mais recebe investimentos, o que tem mais visibilidade, o que domina o noticiário.

Ainda acho que a Copa do Mundo nos dará a real percepção sobre a relação do brasileiro com o esporte nos dias de hoje. Mas pelos números do Datafolha o caso de amor do brasileiro com o futebol parece ter esfriado: 42% disseram não ter nenhum interesse no Mundial, que acontece daqui a 40 dias. Em 2009, o percentual era apenas de 18%.

O que mudou nos últimos oito anos para esse resultado tão ruim? Muita coisa.

A oferta de entretenimento cresceu. A TV aberta, que sempre foi um meio óbvio para a promoção do esporte, perdeu audiência. Quem fica em frente à televisão quartas à noite e domingos à tarde para ver um jogo, muitas vezes ruim?

A qualidade do futebol é um dos fatores que diminui o interesse, certamente. Nossos craques vão cada vez mais cedo jogar fora do país, atraídos pelo dinheiro, mas também pela possibilidade de participar de torneios mais estruturados, com qualidade e competitividade.

Futebol ruim, ingressos caros. Um levantamento feito em 2015 por Oliver Seitz, PhD em indústria do futebol, mostrou que a entrada para ver um jogo no Brasil é a mais cara do mundo em relação ao salário mínimo. O brasileiro, segundo ele, precisaria trabalhar 11 horas para entrar no estádio, enquanto um alemão menos de duas.

Imagine essa conta num cenário de 14 milhões de desempregados. Não por acaso, o Datafolha revelou que as pessoas com menor poder aquisitivo são as que mostraram menos interesse. Parece que pão e circo estão em baixa por aqui.

Então, chegamos à violência. Não é novidade que as torcidas organizadas continuam tocando o terror dentro e fora dos estádios e afugentam o torcedor-família, que quer apenas se divertir sem correr o risco de ser morto por causa de uma turma de animais. E como sabemos, clubes, federações e Ministério Público fazem pouco para mudar isso.

Escândalos da CBF, prisão de dirigentes, má gestão e falta de transparência nos clubes são fatores que não podem ser ignorados. O brasileiro parece farto da incompetência e da corrupção generalizadas no país, e isso inclui o futebol.

Ainda assim, o que não mudou nada é a cobertura de esporte. É sempre aquela pasmaceira sem fim sobre compra e venda de jogadores, análises sobre os jogos, salários, dívidas, Copa, sai Neymar, volta Neymar.

As editorias especializadas, os sites, os programas de TV são quase sempre monotemáticos. Infelizmente, não se deram conta desse movimento, da mudança de comportamento, não perceberam que estão falando com um público cada vez mais restrito, sobre um assunto cada vez mais segmentado. O Futebol foi jogado para escanteio por um de seus jogadores mais apaixonados, o brasileiro.

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