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Se a arte não desculpa o crime, o crime não inculpa a arte

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Da FOLHA

Por JOÃO PEREIRA COUTINHO

Acabo de assistir ao último longa de Noah Baumbach, “The Meyerowitz Stories (New and Selected)”, na Netflix. O filme vale pelo roteiro, pelos atores, pela inteligência diletante de Baumbach.

Mas vale, sobretudo, pelo papel de Dustin Hoffman como o patriarca da família —Harold, um escultor egocêntrico, temperamental, pedante, arrogante, amoral (a lista não tem fim).

Terminei o filme levitando —e depois, de regresso à realidade, descubro: duas atrizes acusam Dustin Hoffman de assédio sexual.

Pergunto: será que a conduta do cidadão Dustin afeta o gênio do ator Hoffman?

A minha resposta é negativa —e concordo com a posição de Hélio Schwartsman nesta Folha. “Pessoas ruins podem fazer coisas boas”, escreve o colunista com a sua habitual lucidez. E eu gostaria de sublinhar a palavra “coisas”.

Não é preciso subirmos aos patamares metafísicos da arte para comprovarmos a divisão das águas. Eu também seria capaz de comprar uma cadeira bela a um carpinteiro eticamente grotesco.

Admito que possam existir limites. Para citar um caso amplamente glosado, será possível elogiar a arquitetura das câmaras de gás de Auschwitz?

Não creio. É como se a memória da tragédia materializada naquela construção impedisse qualquer juízo extramoral. Mas eu também não seria capaz de comprar a cadeira bela se o carpinteiro a tivesse usado para matar a família inteira.

Quando o objeto vem manchado com as cores da infâmia, não há beleza que o salve.

Dito de outra forma: a cadeira, se estivesse limpa, ficaria bem na minha sala; o carpinteiro, se não fosse inocente, ficaria bem na prisão.

E o que é válido para o carpinteiro, é válido para Roman Polanski : é perfeitamente possível imaginar os filmes de Polanski na tela —e o diretor na cadeia.

Todos conhecemos a história: na década de 1970, Polanski violou uma menor nos Estados Unidos.

Após acordo judicial, a acusação baixou o chicote para relações sexuais com menor. Polanski aceitou, confessou —e fugiu para a Europa.

Será legítimo admirar os seus filmes apesar do crime?

Ou as feministas que pedem boicote a uma mostra do diretor em Paris têm razão?

O raciocínio mantém-se: depende de que filmes falamos.

Se, por absurdo, Polanski tivesse filmado o seu próprio crime —ou, para não sermos tão brutais, se os seus filmes fossem exortações a esses crimes, não haveria nenhuma consideração artística autônoma.

Mas os filmes de Polanski pertencem a outra esfera. Se a arte não desculpa o crime, o crime não inculpa a arte.

Anos atrás, ainda sobre o caso Polanski, o jornal “The New York Times” organizou um debate com vários autores e acadêmicos. Para saber, no fim das contas, se a divisão entre o homem e a obra deve ser respeitada.

Relembraram-se fatos óbvios: olhamos para a história da arte e alguns dos maiores criadores eram seres moralmente questionáveis.

Do Renascimento (que Vasari relata no seu indiscreto “Vidas de Artistas”) à presente modernidade (Wagner, Picasso, Pound etc.), nem sempre as grandes obras foram produzidas por santos e beatos. Mas quem relembra isso ao passear pelo Louvre, ao escutar os “Niebelungos”, ao ler os “Cantos”?

Aliás, o verbo correto não é relembrar; é conhecer.

No debate promovido pelo “Times”, o roteirista Damon Lindelof foi direto ao ponto: 200 anos depois, o consumidor de cultura desconhece o lado lunar de muitos autores que admira.

Daqui a 200 anos, pergunta ele, será que as gerações futuras vão assistir a “Annie Hall” com o pensamento perturbante de que Woody Allen casou com a filha?

Boa piada. Boa pergunta. Boa resposta.

Talvez a melhor forma de resolvermos as tensões presentes entre a arte e a biografia do criador seja imaginar esse mundo futuro, onde não estaremos nós nem as nossas confusões e histerias transitórias.

Longe de mim desvalorizar os crimes dos indivíduos. Repito: esses crimes não têm perdão. Mas a grande arte é sempre perdoada.

Quando os bisnetos dos meus bisnetos encontrarem Dustin Hoffman em “The Meyerowitz Stories (New and Selected)”, tudo que terão na frente é o talento imenso de um ator eterno.

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2 Respostas to “Se a arte não desculpa o crime, o crime não inculpa a arte”

  1. Claiton Cesar Says:

    Isso vale para Pelé. Um gênio dentro das quatro linhas, o maior atleta de futebol que já existiu. Já o Edson, um ser que não reconheceu a própria filha, antes a desprezou. Uma coisa não invalida a outra. Pelé, o mito, é eterno. Edson, a pessoa por trás do mito, digna de esquecimento.

  2. Renato (@galenoeu) Says:

    Interessante esse artigo. Então, os mesmos jornalistas que começaram essa idolatria para artistas picaretas que, mesmo que tenha algum talento, fingiam que os mesmos eram como semideuses, agora que a máscara caiu de muitos dos monstros no entretenimento, percebesse que esses jornalistas parecem querer tirar o corpo fora por idolatrar e bajular um bando de artistas imundos.

    Percebesse também que a maioria dos que agora são acusados de assédio, e até estupro, são os mesmos que apoiaram ou apoiam o que existe de pior.

    Por exemplo. A atriz Ashley Judd que revelou o monstro Harvey Weinstein é a mesma que apoiou, e apoia, a candidata Hillary Clinton que é acusada, junto do marido Bill, de acobertar estupros e assédios cometidos pelo maridão. Sabendo-se que Harvey Weinstein é um grande financiador dos Clintons, vai se saber do porque que Ashley Judd ainda apoia essa gente.

    Para que os ideólogos não digam que sou republicano, já que eu quero que ambos os partidos vão para o quinto dos infernos, não é somente a elite dos democratas que estão envolvidos em escândalos sexuais, o tal queridinho dos conservadores brasileiros americanizados e americanos conservadores, o tal do Donald Trump, também participava de festinhas em que menores eram oferecidas para esse parlapatão.

    Só basta os brasileiros americanizados deixarem de “babação de ovo” e procurarem os envolvimentos do Donald Trump para ver como políticos não valem nada.

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