O conhecimento e as trevas

Treinadores trocam ideias em segundo encontro de treinadores do Campeonato Brasileiro

Da FOLHA

Por TOSTÃO

Na quarta-feira, em artigo escrito para a Folha com o título “Informações científicas não tornam as pessoas mais sensatas”, Reinaldo José Lopes comentou uma pesquisa feita nos EUA.

Segundo o estudo, pessoas com o mesmo nível de conhecimento, mas com posições políticas diferentes, tendem a divergir.

Os treinadores geralmente fazem os mesmos cursos, falam o mesmo futebolês, possuem o mesmo conhecimento técnico e tático mas, com frequência, têm condutas diferentes. Ainda bem.

Deveria haver mais variações. Se não fossem os craques, transgressores e as jogadas surpreendentes, como o drible da vaca de calcanhar, dado por Berrío, o futebol seria mais repetitivo e chato.

Será que o atacante colombiano viu a placa de substituição com seu número, segundos antes de dar o drible que resultou no gol do Flamengo sobre o Botafogo?

Lembrei-me da Copa de 1970, no jogo contra a Inglaterra, quando vi Roberto se preparando para me substituir. Senti, no momento, uma gana em fazer algo diferente, antes de sair. Assim começou o gol de Jairzinho. Será que Berrío teve a mesma sensação?

São raros os técnicos que saem do lugar-comum como Guardiola, o que não significa que façam tudo certo. O conhecimento não se aprende somente na escola. Ele depende de nossa história de vida, de nossos devaneios e desejos.

Existe quase um consenso de que técnicos precisam estudar e que não há mais lugar para os apenas curiosos, com muita vontade, porém despreparados, sejam ou não ex-atletas.

Estudar não é apenas frequentar cursos da Uefa, da CBF ou viajar de férias e aproveitar para bater um papo e tirar uma selfie com algum treinador famoso da Europa.

Treinador precisa também ser ótimo observador, capaz de enxergar o que está nas entrelinhas, nos detalhes, sem estar a pensar, parafraseando Fernando Pessoa.

Nessa semana, dezenas de técnicos brasileiros reivindicaram, com razão, mais continuidade em seus trabalhos -os clubes não poderiam contratar mais de dois treinadores por temporada- e um esforço da CBF para fazer com que seus cursos de treinadores sejam válidos no exterior.

Porém, não é o diploma a razão de os técnicos brasileiros não serem convidados. É por falta de prestígio e porque não se preparam bem, não dominam outra língua.

Além disso, os técnicos brasileiros não querem ir a times médios ou pequenos da Europa, onde ganhariam muito menos que no Brasil. Vários treinadores argentinos vão para pequenos clubes, se dão bem e se tornam técnicos de grandes times europeus.

É preciso reconhecer que os técnicos brasileiros, na média, têm evoluído. O que discordo é da exagerada importância que se dá a eles. Rueda e Mano Menezes tiveram condutas corretas no meio de semana, mas as causas mais importantes das vitórias de Flamengo e Cruzeiro foram o drible espetacular de Berrío, a finalização mascada de Diego (se acertasse o chute, a bola poderia bater em alguém e não entrar), o cruzamento preciso de Thiago Neves e o forte e certeiro cabeceio de Hudson.

Não compreendemos muitas coisas no futebol. “Os que têm estudo explicam a claridade e a treva, dão aulas sobre os astros e o firmamento, mas nada compreendem do universo e da existência, pois bem distinto de explicar é o compreender, e quase sempre os dois caminham separados” (João Ubaldo Ribeiro, em “O albatroz azul”).

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