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Expressão, crítica, jornalismo: todos gostam, mas ninguém tolera

Jornalismo de verdade vs. Assessoria de imprensa informal

Da FOLHA

Por LUIS FRANCISCO CARVALHO FILHO

O que é o que é, todos gostam, principalmente contra os outros, mas ninguém tolera? Liberdade de expressão, direito de crítica, jornalismo.

No mundo mágico de Harry Potter, “O Profeta Diário” aparece como veículo de disseminação de distorções, falsidades e ofensas. Inspirado nos tabloides ingleses, o jornal bruxo é visto pelos heróis da trama como inimigo, bem singelo diante da violência extrema das forças do mal, mas sim, um inimigo.

Nos EUA, Trump intimida apontando dedos acusatórios para a desonestidade de repórteres. Na Turquia, Erdogan prende jornalistas, fecha jornais e emissoras. Temer tenta impor censura pela veia aparentemente ingênua da privacidade da primeira dama. Lula quis expulsar correspondente estrangeiro. Há sutilezas e aberrações institucionais que, de uma forma ou de outra, embaraçam a circulação de notícias e ideias na Venezuela, em Cuba, na Rússia, na China, no Irã ou na Etiópia.

Nas redes sociais, é tudo enviesado, distorcido: quem critica a Lava Jato é a favor da corrupção e quem a defende é favorável ao autoritarismo e à violação de garantias individuais. Colunistas são insultados porque escrevem o que pensam. Renata Lo Prete, da GloboNews, é “golpista” quando noticia falcatruas atribuídas ao PT e “esquerdista” quando aperta o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que reclama frequentemente da parcialidade da imprensa.

É compreensível que as pessoas se dividam em blocos oponentes e compartilhem ilusões. Mas o público não está preso às armadilhas maniqueístas. Acredita quem quer.

Juízes, parlamentares, governantes e movimentos sociais não gostam de serem vigiados. A Justiça não é garantia de lisura e imparcialidade. Jamais haverá jurisdição perfeitamente equidistante. Quem se sente perseguido tem direito inalienável de espernear, de se defender e de buscar reparação dos danos morais. A intolerância é agressiva. Erros e excessos perturbam. Mas ainda não se inventou nada com tanta capacidade de incomodar governos e difundir valores.

Só por isso, a engrenagem da informação merece existir, sem entraves.

Notícias falsas e efêmeras, como mostrou a última edição da “Ilustríssima”, são produzidas por ideologia ou por interesse negocial. Mas sátiras, xingamentos, rumores e boatos fazem parte da história da comunicação. Multiplica-se hoje por bilhões o que era rotina. Há algo a ser feito?

As fábricas de mentira funcionam no ambiente digital porque divulgam aquilo que pessoas gostariam que fosse verdade: Lula ou Temer recebendo malas de dinheiro, celebridades afirmando o que nunca disseram. Além do contorno quase religioso do desejo de acreditar (e instantaneamente replicar), a perspectiva eleitoral também explica a falta de pensamento crítico.

Qualquer iniciativa para impedir, a priori, a publicação de algo, por mais escandalosamente enganoso que possa ser, é perigosa. Não é preferível conviver com falsidades, da esfera pública e privada, a inibir a circulação desimpedida do que pode, ainda que remotamente, ser verdadeiro?

Cabe ao leitor e ao espectador verificar a credibilidade da informação e do discurso que se oferecem. Se não o fazem e se deixam enganar, leis e magistrados certamente não saberão fazê-lo.

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