Grafite no limite

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EDITORIAL DA FOLHA

A polêmica sobre grafites e pichações na cidade de São Paulo demanda uma solução capaz de contemplar dois interesses legítimos e em parte conflitantes.

Não é justo que proprietários das superfícies atingidas tenham de arcar com o custo periódico de repintá-las, nem que os autores de tais intervenções imponham seus padrões estéticos à cidade inteira.

Aceitar que cabe ao poder público garantir certo ordenamento visual na paisagem urbana esteve na base da Lei Cidade Limpa (2006), que restringiu a exposição publicitária de modo draconiano sob apoio quase unânime.

Por outro lado, boa parte dos grafites faz jus à condição de manifestação artística, sendo esta uma das cidades do mundo em que tal forma de expressão mais floresceu, num interessante contraste com a aspereza de sua paisagem.

Aos trancos e barrancos, num açodamento que vai se tornando característico da novata gestão João Doria (PSDB) em seu afã de gerar repercussão, parece que a prefeitura se aproxima de uma fórmula mais razoável.

Seja porque fosse essa a intenção original, seja porque foi intenso o antagonismo suscitado pelo apagamento aparatoso e desnecessário de pinturas coloridas com tinta cinza, anuncia-se agora um programa de promoção da arte do grafite, sob o pomposo nome de Museu de Arte de Rua.

Certas regiões da cidade seriam palco de intervenções organizadas pela própria prefeitura, num esquema de rodízio acordado com a comunidade em que os trabalhos pintados nos muros e empenas permanecessem expostos por determinado tempo.

Com o aparente desígnio de cooptar parte do movimento grafiteiro, sugere-se na equipe do prefeito que o programa ampliará a duvidosa prática de remunerar artistas de rua que já vinha sendo adotada pelo antecessor, Fernando Haddad (PT).

Espera-se que a precipitação autoritária não seja substituída por outro vício do poder público, o de intervir e controlar em demasia.

Seria melhor que os próprios artistas se organizassem de modo autônomo e preenchessem como quisessem áreas para tanto designadas pela prefeitura (e não há motivo para que o corredor da avenida 23 de Maio não esteja entre elas).

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