Até os postes da rua da Carioca sabiam de Sérgio Cabral

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Da FOLHA

Por ALVARO COSTA E SILVA

Não fui íntimo, mas conheci Sérgio Cabral de perto, enquanto fazíamos a faculdade de jornalismo. Na época, ele era só o Serginho. Não se imaginava que pudesse virar deputado, senador, governador do Rio; tampouco que hoje seria hóspede de Bangu, a cabeça no pelo curto.

Não me lembro dele no Tricopa, o botequim próximo. Torcedor do Vasco, nas peladas da turma Serginho se revelou um atacante caneleiro e violento — estilo que mais tarde adotaria na política. Tinha mais vocação para gazeteiro do que para jornalista: pouco ia às aulas. Certa vez, devendo um trabalho para o jornal-laboratório, trouxe um perfil sobre Nelson Cavaquinho em laudas velhas, a tinta da máquina de escrever quase sumindo. Um colega garantiu que ele havia contrabandeado o texto dos arquivos do então Sérgio Cabral mais famoso, o pai, um dos fundadores do “Pasquim”.

Depois, quando nos encontrávamos, com sua carreira política subindo como foguete, invariavelmente fazia a pergunta: “Você está precisando de alguma coisa?”. Um dia resolvi responder, no meio do beco dos Barbeiros, ele cercado de acólitos: “Estou. Você podia parar de fazer essa pergunta”. Devo ter perdido a chance, ali, de pôr um lenço na cabeça num restaurante de Paris.

Sua prisão foi comemorada nas ruas com fogos e vivas. As acusações do Ministério Público Federal são espantosas — um esquema que desviou R$ 224 milhões, além da propina mensal particular de 5% do valor das obras — mas, mais espantoso ainda, foi o tempo que se levou para levantar a lebre e agir. As relações perigosas do ex-governador eram sabidas até pelos postes da rua da Carioca.

As primeiras denúncias contra Cabral remontam há quase 20 anos, e ele conseguiu passar esse tempo todo pagando o cachorro-quente, nas festas de aniversário dos filhos, com dinheiro de empreiteiras.

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