Lost in Translation

lochte

Da FOLHA

Por MARIANA LAJOLO

O filho bebe, faz coisas estúpidas, chega tarde em casa e não quer que mamãe descubra. Com um roteiro bem parecido com esse, Ryan Lochte parece ter criado a maior controvérsia dos Jogos Olímpicos do Rio.

O nadador, dono de 12 medalhas em Olimpíadas, saiu para uma noitada com outros três atletas, voltou às 7h da manhã, ligou para a mãe e contou que havia sido vitima de um assalto à mão armada. Caiu bêbado na cama.

Quando acordou, havia criado uma controvérsia internacional.

A mãe espalhara a história, e a mídia do mundo todo falava sobre como a estrela da natação mundial havia sido vítima da violência terrível do Rio de Janeiro.

O Comitê Rio 2016, que já está com a imagem arranhada, pedia desculpas. O mundo duvidava da capacidade de os organizadores garantirem a segurança dos atletas, delegações avisam seus esportistas para não andarem pelo Rio, jornalistas questionavam por que o COI havia tido a infeliz ideia de levar os Jogos a um lugar tão perigoso.

O circo estava armado, e Lochte deixou o espetáculo continuar. Mas a inconsistência de seus próprios relatos, o vídeo dos atletas chegando à Vila às 7h -sorrindo, com celulares e carteiras nas mãos- e a vontade de mostrar que sabe trabalhar fizeram a polícia e a Justiça do Rio se aprofundarem no caso, até descobrirem que a história parece ser outra.

Quem assiste ao vídeo com as imagens do que aconteceu no posto de gasolina naquela noite consegue até ter boa vontade com os atletas. Dá para imaginar um roteiro: eles pararam, foram abordados por um segurança (ou policial) que deu ordens que eles não entenderam. O cara não falava inglês, e eles só devem saber falar obrigado em português. Ficaram confusos, irritados e quiseram ir embora. O segurança sacou uma arma e continuou a falar coisas que eles não compreendiam. Depois de um tempo, abriu a carteira de Lochte, arrancou US$ 400 e os mandou embora. Ou exigiu dinheiro, recebeu e os mandou embora.

Lost in translation. Para eles foi um assalto. É uma história possível.

Não seria surpresa um segurança ou um policial tendo uma atitude despropositada, vergonhosa até.

Só faltou um detalhe: contar que antes de serem abordados pelo “ladrão”, haviam feito coisas estúpidas e provocado danos ao posto de gasolina.

Não é difícil imaginar Ryan Lochte na balada até tarde, enchendo o cara, nem quebrando coisas em algum lugar entre a zona sul e a Barra da Tijuca de madrugada.

O nadador é conhecido pelo apreço pelas festas e pela inconsequência. Nunca foi dos exemplos de comportamento que o esporte americano gosta de exibir. Mas é excelente dentro da água.

Também não é difícil imaginar Lochte inventando ou escondendo detalhes de uma noite confusa para fugir de uma punição da federação de natação dos EUA ou de broncas da namorada ou da mãe.

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