Não tendo esperança, Hector Babenco viveu mais que o esperado

babenco

“Na noite anterior ao transplante, o irmão lhe cobrou um milhão de dólares pela medula”

Da FOLHA

Por FERNANDA MONTENEGRO

O jovem cineasta se contorcia de ansiedade, à espera de saber se seu filme seria, ou não, selecionado para um dos grandes festivais de cinema do mundo. “Eu também já tive tanta esperança…”, disse Hector Babenco, que testemunhava o sofrimento com um misto de ironia e compaixão.

A frase se transformou num mote que me guia desde então. Toda vez que me vejo aflita, na expectativa de resultado, ouço o inconfundível sotaque portenho ecoar: “Eu também já tive tanta esperança…”.

Babenco enfrentou um câncer linfático no momento em que sua carreira deslanchava nos States. Na noite anterior ao transplante, o irmão lhe cobrou um milhão de dólares pela medula. A cena está lá, no derradeiro filme, “Meu Amigo Hindu”, que trata da origem de seu longo, e refinado, duelo com a morte.

Cedo, aprendeu a não ter esperança. E, não tendo, viveu mais do que o esperado.

Era carinhosíssimo e sincero como uma navalha afiada. Aos menos íntimos, a sinceridade poderia parecer crueldade, mas era sinal de respeito por quem ele amava e admirava.

Nada tinha do brasileiro cordial, de salão, era um judeu argentino, profundo, culto, cortante, como a nossa mistura de português, africano e índio não sabe ser. Ou compreender.

Chegou ao Brasil pela raia de fora, na contracorrente do cinema novo, dirigindo um documentário sobre Fórmula 1. Fez “O Rei da Noite”, “Lúcio Flávio” e fez “Pixote”. “Pixote” não se enquadrava em nenhuma escola nativa, era cru, violento, realista, tocante e difícil de suportar.

Clássico.

Marília dando de mamar para Fernando Ramos, a puta dançante, iluminada pelo farol. E Jardel, meu Deus, Jardel passando em revista os internos da Funabem. Que cena. Jamais esqueci.

Existem inúmeras histórias folclóricas a respeito dele. A do elenco americano que se revoltou porque o diretor matou uma aranha no set de “Brincando nos Campos do Senhor”. “Uma aranha não pode, mas os milhões de índios e vietnamitas que você assassinaram não tem problema”, devolveu, de bate-pronto, para as divas com propensões ecológicas.

E tem a de Dionisio Neto, que foi espairecer no litoral de São Paulo, durante uma folga de “Carandiru”. Às sete da matina da segunda-feira, de volta ao batente, o ator descobriu que a primeira sequência do dia seria o seu dó de peito na película. Relaxado da praia, não rendeu sofrimento digno. Hector, sentado diante do monitor, berrava para quem quisesse ouvir: “Dionisio, estou te dando um CLOSE! É a chance da tua vida, Dionisio! E não tem nada aqui!!!”.

Perdi três oportunidades de trabalhar com ele. Foi medo, acho. Gostava muito do Hector, jamais me importei de ele ter sido o primeiro na fila do camarim, na estreia de “A Casa dos Budas Ditosos”, para me dizer que tinha detestado a peça. Eu adorava a franqueza mortal dele, mas tinha receio de não resistir no set.

Li malíssimo um teste de “Carandiru”. Minha analista, na época, achou que fiz de propósito. Há controvérsias. Ele voltaria a me sondar para um papel em “O Passado”, mas as datas não coincidiram, o mesmo se deu com “Meu Amigo Hindu”. A cada novo convite, eu experimentava o orgulho dele de ainda ter respeito por mim e o pânico de não estar à altura de sua exigência.

Era impossível mentir para ele.

Na semana em que o Babenco partiu, revi “O Último Imperador,” do Bertolucci, e pensei nele e na geração dele, que nutria adoração pelo italiano. Que falta faz um cinema assim.

Que falta imensa fará o Hector.

Facebook Comments
Advertisements

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.