O PT que virá após Dilma

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Por PROF. HILTON NÓBREGA DA COSTA

Pelas notícias divulgadas nos jornais, rádios e emissoras de TV, o governo Dilma estaria chegando ao seu crepúsculo. Mesmo os apoiadores governistas acham que a luta é muito difícil –quando não, perdida.

Enquanto anunciam a mudança de governo, defensores e contestadores, indicam um cenário de batalha política e social para a próxima administração. Anuncia-se que o PT, junto com os movimentos sindicais e sociais, já estaria com a faca nos dentes para inviabilizar qualquer governo que não o de Dilma.

Mesmo com esta quase unanime opinião de um estado de guerra pós-Dilma, ouso dizer que há equívocos na construção desta ideia. Para melhor entender a questão, precisamos conhecer adequadamente o PT e sua história, que vai do movimento sindical até a Presidência da República.

O PT nasceu na década de 70 com o engajamento de três grupos.

O primeiro foi formado por sindicalistas nascidos das lutas daquele período, que desencadearam uma bandeira fortemente reivindicatória, mas sem nenhum vínculo com a política tradicional.

Defendiam um novo sindicalismo, sem contaminação de ideologias.

Eram críticos à “herança sindical” getulista e também aos partidos tradicionais de esquerda, que atuavam na resistência ao regime militar. Exemplo disso está claro no discurso de posse de Lula como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, onde as críticas foram pesadas contra a esquerda.

Naquela ocasião, na mesa de convidados, estava presente um grande número de autoridades do governo militar.

O trabalho sindical, fortemente reivindicatório, num período de crise econômica favoreceu, em muito, o grande prestígio que adquiriu este “novo sindicalismo”.

Mesmo com certa característica conservadora (pois não queriam mudar o modelo político corrente, mas sim ganhar salários melhores), não demorou muito para um segundo grupo se engajar com este novo movimento sindical num trabalho que culminaria no nascimento do PT.

Este segundo grupo era composto por pessoas que haviam participado da luta armada contra os militares. Haviam sido derrotados, mas ainda conservavam a esperança de constituir um movimento mais radical do que a oposição tradicional.

Daí porque muitos conseguem incutir no PT uma certa áurea de socialismo que, embora seja indefinido e impreciso, sempre esteve presente nas cores da bandeira, na estrela do partido e em algumas ideias genéricas de mudanças sociais.

Este grupo era menor e menos significativo, mas foi importante pela experiência que seus militantes traziam para a nova agremiação. O radicalismo petista, oriundo da luta armada, muito ajudaria no engajamento de jovens com sede de experiências mais radicais para uma mudança no país.

O terceiro grupo de pessoas que se juntaram para fundar o partido, nem sempre é muito lembrado, mas teve grande importância. Esse grupo fazia parte de setores da Igreja Católica. Boa parte deles eram provenientes da teologia da libertação.

Sua contribuição foi decisiva, tanto no debate quanto no apoio material e logístico em paróquias e colégios, que se encantaram quase messianicamente com a ideia de pessoas simples e praticamente analfabetas tomarem a frente de partidos políticos.

Esta franja mistificadora da Igreja trazia também a bandeira da limpeza, de quem não se misturava com a política tradicional, da esquerda e da direita. A ideia de pureza era quase uma UDN reconstruída e foi muito importante para o PT pavimentar sua caminhada da fundação do partido num colégio católico até o poder estabelecido no palácio do planalto.

Toda essa jornada é composta por alguns momentos de destaque. Começa com as derrotas das candidaturas de Lula e vai até o episódio de Santo André. Depois deste acontecimento no ABC, o partido ganhou outras feições, que só seriam escancaradas, posteriormente, em mensalões e petrolões.

Embora o sindicalismo e os movimentos sociais tenham grande aderência junto ao partidarismo petista, a crise econômica, que a administração Dilma trouxe ao país, cobrará seu preço para as próximas gerações do PT.

Os grupos originários da luta armada já não provocam nenhum encantamento, inclusive por seus envolvimentos nos escândalos do governo petista.

Mas o mais relevante se observa no terceiro grupo, que é o da Igreja. Nele não existe mais condições para um apoio ao PT, mesmo que o partido se renove.

A facção que pregava a ética, a pureza e a limpeza já não cede seu uniforme para os petistas.

Também importante é perceber que a teologia da libertação já é um passado. Mesmo o espírito progressista do Papa Francisco não se dá em parâmetros como aqueles dos anos 70.

Sem a bandeira da ética e da pureza que definiam o PT como um partido único e sem qualquer ligação com a política tradicional, os ideais clássicos petistas desapareceram e não mais renascerão.

Quem acha que um governo pós-Dilma sofrerá forte oposição dessas três vertentes que criaram o PT está equivocado.

A imagem da Igreja mistificadora e messiânica é agora insignificante. Os movimentos sociais, exceto aqueles poucos que estão muito engajados, refletirão que não há futuro em juntar-se a uma retomada petista. Contrariamente ao que tem sido dito, o partido entrará num processo de grande rediscussão, sem o apoio da Igreja, sem a mística da luta armada e com os sindicalistas todos pessoalmente já bem colocados.

O governo que vier depois de Dilma terá dificuldades sérias, por conta da brutal crise econômica, mas o quadro político será bem diferente do que apregoa os analistas dos dias atuais.

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