Saúde debilitada
EDITORIAL DA FOLHA
Parecem não ter fim os problemas envolvendo a gestão da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Desde o abrupto fechamento do pronto-socorro do hospital por 30 horas, em julho, foram instaladas auditorias que revelaram desvios em todas as frentes escrutinadas.
A mais recente trouxe detalhes sobre a saúde financeira da secular instituição. Fosse o diagnóstico de um paciente, ele certamente seria encaminhado à UTI.
Descobriu-se que a dívida da Santa Casa aproxima-se de R$ 800 milhões, quase o dobro do que sua direção havia divulgado em setembro. Apenas esse desconhecimento em relação ao tamanho do débito já seria suficiente para indicar graves problemas administrativos e levantar suspeitas sobre fraudes, como desconfia o Ministério Público.
Para piorar, o aumento do saldo devedor da entidade é inversamente proporcional ao do seu patrimônio líquido (soma de bens e valores da instituição, descontadas as dívidas e desconsiderados os imóveis). De 2009 a 2013, este caiu de R$ 220 milhões para R$ 323 mil.
O mau uso dos recursos está presente na própria gênese da atual crise. Sabe-se agora que, quando houve o fechamento do pronto-socorro –motivado, segundo se disse à época, pela falta de verbas para a compra de remédios e insumos–, a irmandade mantinha R$ 6,4 milhões em aplicações financeiras resgatáveis a qualquer momento.
A situação torna-se ainda mais desconcertante porque, no mês seguinte, parte desse dinheiro foi destinada à compra de um imóvel de R$ 2 milhões, o qual se juntou aos cerca de 750 que a entidade já possuía. A gestão desse enorme capital imobiliário, aliás, traz mais indício das deficiências do hospital.
A Santa Casa aluga cerca de 80% de seus prédios, o que poderia se traduzir em boa fonte de divisas. Analisando os contratos de locação, porém, os auditores descobriram valores até 81% menores que os praticados pelo mercado. Os técnicos estimaram que uma administração mais eficiente elevaria em cerca de R$ 60 milhões ao ano a arrecadação da irmandade.
Diante de quadro tão escabroso, o secretário da Saúde de São Paulo, David Uip, afirmou que é até difícil imaginar meios legais para repassar dinheiro à instituição.
Concluídas as auditorias –há uma ainda em curso–, cumpre apontar e responsabilizar os culpados por tamanha incúria administrativa. É urgente restabelecer a saúde desse longevo paciente.

