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Túlio 999, respeito

Da FOLHA

Por XICO SÁ

“Feliz gol mil, Túlio. És uma figura. Se não sair hoje, juro que estarei contigo na próxima tentativa”

Amigo torcedor, amigo secador, o cara é tratado como folclórico, como se o folclore fosse uma coisa ruim e depreciativa, tudo bem, “folk” e “lore”, do inglês, costumes de um povo, conhecimento de uma gente, fala sério, desculpa, mas uma das coisas que aprecio nos seres humanos, boleiros ou não, é a obsessão, e hoje, desculpa mídia inteligente de elite, só quero saber do Vilavelhense X Desportiva Ferroviária.

No tal embate, Túlio Maravilha pode chegar ao milésimo gol. Quem busca o milésimo, seja quem for, mesmo a gente dando um desconto de cem gols como margem de erro, merece respeito. Seja o Túlio seja o bravo Romário, seja o amigo flamenguista Leo Jaime, que diz ter feito dois mil e tantos. É sério.

Preste atenção, meu velho, são gols, não são crimes, e, quase sempre, vemos a austera imprensa caçoando de tal feito. O 999 do Túlio ganhou o apelido de “gol moqueca”, justa homenagem ao Estado que o recebeu, aos 44 anos. Trabalha e confia, Espírito Santo.

Tem gente que invoca com o singelo trocadinho que o artilheiro fatura nesse projeto louco. Que mal há nisso. Gente hipócrita que ama tanto o dinheiro que não admite que alguém o ganhe fazendo gol e graça. Deixa o cara, pô, se hoje ele faz diante de meia dúzia de torcedores, já fez para o Goiás e para o gigante Botafogo com o Maraca lotado.

Eu mesmo odeio o que ele fez com o Santos em 95. Mas basta lembrar o que o meu amor na época, Daniela Rocha, dizia: “Que cara boa tem esse teu novo inimigo”. De acordo. Ia ao Pacaembu com a Dani no tempo em que podíamos atirar radinho de pilha no bandeirinha. Não chegava a tanto. Quebrava o radinho na arquibancada mesmo.

Tomara que saia hoje o milésimo. De tanto a imprensa caçoar, estou na torcida. O brasileiro despreza o épico. Só gosta do goleador chato. Como o Túlio tira onda, está condenado. O brasileiro é um paulistano de nascença. Já nasceu desconfiado da nossa possibilidade do épico.

Gols, verdadeiros ou fictícios, não são crimes. São sonhos. Lindos sonhos de criança. Senhores comentaristas, sejam menos sérios, por favor, acreditem no futebol como fantasia, não como se fosse uma estupidez da política. De tanto levar a sério essa coisa, a gente acaba ajudando a provocar a violência.

Volto ao meu amor safra 95: “Eles discutem tão sério que parece que é uma assembleia da ONU”, dizia Dani, musa linda de Sorocaba e do mundo, sobre as mesas redondas.

Feliz gol mil, Túlio. És uma figura. Se não sair hoje, juro que estarei contigo na próxima tentativa. Persegues a alegria, a prova dos nove, moqueca é capixaba, o resto é peixada. Aquele abraço.

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