Sobre bolas e laranjas

Por LEONARDO BERTOZZI

http://espn.estadao.com.br/post/281172_sobre-bolas-e-laranjas

Admito, eu queria ser João Leite. Ostentava orgulhoso aquele uniforme cinza, com calções pretos. E luvas, claro. Brincava de fazer pontes, de encaixar sem dar rebote, de ser herói por um dia. Já quis ser Walter Zenga, quis ser Cláudio Taffarel.

Em 1991, na quinta série do Colégio Pitágoras, eu era só eu mesmo. Tímido, de poucos amigos, no banco de reservas da CT15F durante a Olimpíada escolar. Não que eu me queixasse, pelo contrário. O sentimento de pertencer a uma equipe já era especial.

Mas o regulamento determinava que todos jogassem ao menos um trecho das partidas. Alguns minutinhos, sem comprometer, e pronto. A estreia foi uma vitória fácil, 5 a 0. Era importante não levar gol quando eu estivesse no jogo. Assim foi.

O segundo jogo seria contra uma turma da manhã. Sabíamos pouco sobre eles. Começamos mal. Nosso goleiro estava nervoso, levou um gol fácil. Vai lá, Léo, entra lá. Tenso, muito tenso. Um gol de falta no último minuto e conseguimos empatar, 3 a 3.

Pênaltis. Gritam meu nome. Opa, sabem meu nome. Três cobranças para cada lado. Gol nosso, gol deles, gol nosso, gol deles. Trave. Fecha o olho, pensa, não pensa que é melhor. Defende. Defendi.

Alternadas. 3 a 2 para a gente. Vai, garoto, vai ser herói. Não me mexo, a bola vem forte, no meio, explode em mim. Desabo, mas não fico muito tempo no chão. Já estão me jogando para cima.

Na semifinal enfrentamos um time cheio de repetentes. Não vimos a cor da bola. 7 a 2 para os caras. Perdemos na bola e na força. Apito final, deito no chão e começo a chorar. Acharam que era de dor. Corre, corre, ele tá machucado, diz uma menina da turma. Chegam outras duas, três para ver. Tá doendo, tá doendo (deixa eu curtir meu momento), vamos pra enfermaria.

Dias depois, o Breno, que perdeu o pênalti, vem falar comigo. “Cara, você salvou minha vida”. Exagero? Não para quem estava lá. Aquela era nossa Copa do Mundo.

Com os vizinhos, não tinha uniforme, não tinha juiz, não tinha medalha. Mas sabíamos levar a sério quando precisava. Quando os garotos mais velhos queriam nos expulsar da quadra, por exemplo.

Por que não jogam contra a gente, então? Tá bom, seus pirralhos. Vamos lá. Queda de dez. Um, dois, três, quatro… para nós. Eles podiam não estar levando a sério, mas de repente se sentiram humilhados. E a coisa pegou fogo.

Vencíamos por 8 a 7 quando as luzes se apagaram. Dez da noite, o síndico mandou, regras são regras. Ganhamos, claro. Motivo de força maior. Somos os melhores. Vamos começar a treinar para enfrentar os prédios vizinhos e vamos ser campeões do bairro.

Treinávamos todo dia, tínhamos time titular e reserva. Nunca conseguimos um time para nos enfrentar. Os marmanjos, claro, nunca aceitaram a derrota.

Imagino como é jogar em um estádio para milhões de pessoas, disputar títulos importantes, alegrar inteiras nações de torcedores. No fundo, todo mundo que é louco por futebol sonha com isso. Muitos tentam e dão com a cara na porta, poucos conseguem.

Sou apaixonado por futebol, me contentei com minhas pequenas e valiosas vitórias, mas resolvi viver por ele mesmo assim. Acredito no conhecimento, na informação, no constante aprendizado. Ler, ouvir, debater. Sabendo que é impossível igualar a experiência de quem esteve lá dentro para valer, mas consciente de que minha paixão não é menor por isso.

De vez em quando ainda brinco de chutar laranjas na cozinha. Pelo menos minha filha de 3 anos me acha craque. Ela espera que eu guarde alguns minutos do meu dia para colar figurinhas com ela. Já sabe a escalação completa do time dela, e conhece vários jogadores dos outros. Compartilhar com ela o amor pelo esporte desde cedo é uma das minhas maiores satisfações.

Por isso mesmo, quando ficar velho, espero poder falar com ela sobre futebol com a mesma paixão dos dias de hoje. E continuar assistindo e falando dos jogos por prazer, não por obrigação. Não sou João Leite, Zenga ou Taffarel. Mas o futebol me dá tantas alegrias quanto deu a eles.

Facebook Comments
Advertisements

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.