Renê Simões emociona-se ao se despedir de companheiros da Record, em Londres

Tivemos acesso a carta de despedida enviada pelo Coordenador das categorias de base do São Paulo, Renê Simões, aos seus colegas de trabalho da Record, durante as Olimpíadas de Londres.

Um relato tocante, em que agradece aos seus companheiros pela ajuda e convívio, e conta histórias interessantes, entre elas uma passagem sua na escola, na época da Ditadura, em que diz se arrepender do discurso que realizou, exaltando o Governo militar.

Conta ainda histórias interessantes com Rómario, Savoia, etc.

Vale a pena conferir.

Por RENÊ SIMÕES

Queridos colegas de trabalho,

Permitam esse atrevimento, embora não seja jornalista e nem trabalhador fixo da Rede Record de Televisão, foi assim que me senti, um colega de trabalho e não apenas isso, me senti como se já conhecesse e partilhasse, sofrimentos, perdas, dores, alegrias, conquistas e tudo que verdadeiros e sinceros companheiros de missão sente quando se gostam e se respeitam.

Há mais de quarenta anos no futebol, sempre imaginei que uma cobertura televisiva de jogos Olímpicos como esses de Londres, fosse uma tarefa dificílima, mas nunca imaginei que fosse tão grande e corrida.

Como treinador, tenho que fazer com que meus atletas executem cem por cento daquilo que sabem que podem fazer e não fazem por não quererem, por não se sentirem preparados ou por não estarem focados e confiantes no seu talento e potencial.

Alguns dizem que precisamos motiva-los a fazer, eu retruco afirmando que temos que incomoda-los, ou o inventor da roda era só talentoso e genial ? Não, ele estava incomodado por carregar ou ver os outros carregarem sacos e pesos em suas costas.

Pude ver em cada um de vocês um jogador, aliás, diferentes jogadores em ação, alguns como muita inspiração, outros com inspiração e transpiração, pude ver atletas que são de jogos contra times grandes, desafios difíceis, quase impossíveis, outros que não aceitam perder de jeito nenhum. Vi de tudo um pouco e saibam que o mais importante, vi um time jogando o jogo, fazendo a leitura diária do adversário, fazendo coberturas das costas dos colegas, incentivando nos lances quase perdidos, vi camaradagem, vi objetivos comuns se misturando com o objetivo coletivo maior, ou seja, a vitória do projeto.

Cheguei como pato novo, fui andado devagar e feio, nadando lento e pouco e voando baixo e desajeitado…

Tinha dúvidas se conseguiria, receio de que não fosse bem, qual seria o tom, como serei recebido e tantas outras coisas que acontecem e pensamos que podem acontecer quando saímos daquilo em que somos especialistas.

Mas, foi uma química incrível, muito rápido a bola me era passada e todos acreditavam e torciam para que eu fizesse o gol, lindo e estimulante.

Mais rápido ainda, já me sentia um ganso, fui adotado por alguns e achei até que já era da casa há anos.

Estou com muito cuidado ao citar nomes e ser deselegante ao esquecer alguém, mas se permitem citarei alguns e que os que não forem citados, não será por menor grau de importância e carinho.

José Eduardo Savoia tinha tudo para ser meu adversário.

No entanto foi minha grande bengala, me deu suporte em tudo o que precisei e me amparou com a fidalguia dos lordes britânicos. Tivemos longas conversas de futebol, troca de ideias apaixonadas por esse esporte que dizem ter sido inventado aqui.

Obrigado jsavoia, você é grande.

Zucatelli, reconstrução de conceitos preconcebidos, nunca fui fã dele na TV.

Eu tenho uma teoria que se vem comprovando ao longo de minha existência, todos os caras de que eu não gostei a primeira vista, se tornaram meus melhores amigos.

Eu acho que não gosto de pessoas que se pareçam comigo, pois elas possuem os mesmos defeitos que eu não gosto em mim. E como não vou ficar me punindo, quando encontro alguém assim rejeito, como forma de dizer que ele é errado. Ficou confuso ?

O Zuca tem o lado feminino, preocupado, singelo como o meu. Gostamos de agradar as pessoas, ficar preocupadas com elas, viver os problemas juntos, carregar no colo, emprestar o ouvido e etc. Mas isto são virtudes, você diria, certo, mas os defeitos devem ser os mesmos também e aí, deixa pra lá .

Ele me conquistou e passamos a vibrar em cada momento a cada ação, a cada reportagem e comentários. A cada dia uma nova alegria uma grata surpresa.

A história de vida entre ele e as decisões com a esposa, uma sábia guerreira, são tão parecidas com as minhas e de minha esposa que me emociono outra vez, só em escrever.

Zuca, sou seu fã.

Mauricio Torres, meu monge tibetano.

Se paciência um dia não gostou de ser chamada assim, e pensou em como se chamaria, tenho certeza de que quase escolheu MTorres, seria a simbiose perfeita entre a qualidade e a pessoa. Sempre calmo, inspirador, tranquilizador, tem sempre uma palavra ao pé do ouvido que te faz acreditar que você é o Phelps, o Bolt ou o Neymar e que será campeão.

Obrigado meu amigo, me senti forte e sábio ao seu lado.

Toninho- Esse é um caso de amor e ódio.

No primeiro jogo que fiz, em Cardiff, fiquei louco com aquela voz que se achava o dono do mundo. Juro, imaginei que chegaria um momento em que eu desabafaria, embora ele não tenha se referido a mim em nenhum momento ou até por isso, dele, talvez , ter me ignorado.

Num determinado dia, fiquei cercando- o e circulando pelo nosso quartel general. Ele saiu da sala e junto com mais outros dez ou doze se dirigiram para a parada do ônibus, eu precisava conhecer um pouco do meu adversário, precisava saber quais as armas que ele usava, sua munição e se tinha algum ponto fraco.

Me juntei ao grupo e perguntei para onde iam, vamos jantar no shopping, me convidei na hora. Hoje seria o dia, quero ouvi-lo saber dele.

Primeira dificuldade , nem todos queriam ir ao TGIFriday, ele queria. Saiu andando e eu acompanhei-o, naquele dia jantaria com ele, até na barraquinha da praça.

Fomos, ainda no shopping, num restaurante brasileiro, comemos e bebemos bem. Ele me contou coisas que me encantaram, pois eram coisas que eu faria hoje e não fiz na minha época de universitário.

Eu fui orador de turma na formatura na universidade, tenho até hoje o discurso e já comentei muitas vezes com minhas filhas o que era um cara alienado. Em plena ditadura, 1976, eu agradecia ao governo e a universidade o ensino que nos dera. Uma vergonha o discurso!

E ali, sentado na minha frente o grevista, enfrentador de policia e cassetete que eu não fui, o cara que usava calca de listras que também usei, o cara que tinha a coragem de dizer que nunca se formou. Eu vibrava com as histórias que minha criação, sem reclamações de meus pais, foi tudo por amor, não me permitiu viver, não me encorajou a lutar.

Só fui descobrir isto nas lutas diárias depois de formado, fui saber das verdades depois de cair no campo de luta da vida cotidiana.

Obrigado, se temos o direito de ir e vir, muito se deve a pessoas como você, destemidas e preocupadas com o direito coletivo. Valeu pela aula de vida. Depois disso seus comentários nos jogos, viraram poesia aos meus ouvidos.

Romário, Deus olhou para você e disse: Você é o cara!

Lamentavelmente ele não te dotou com o talento de jogar bola, mas você bate um bolão num outro gramado, o da honestidade, que virou virtude, quando deveria ser obrigação.

Para vocês que até agora não entenderam nada, explico!

No jogo de Cardiff, o primeiro das meninas, ao acabar o almoço com MTorres, Claudia Reis e Valéria, procurei dinheiro nos bolsos do terno e nada, percebi que havia deixado na bancada no quarto de meu hotel, duzentos pounds.

Ao término do jogo, demos uma passada no hotel e nada, ninguém havia achado o dinheiro.

Três dias depois, estou comentando o segundo jogo e entra na cabine, de nossos estúdios aqui em Londres, a figura maravilhosa e inteligente do Cesinha. René, o Romário achou trezentos pounds no saco de ternos e mandou devolver. Agradeci, Obrigado. Nossa o baixo foi para Cardiff e achou o meu dinheiro, nossa isso é incrível!

No dia seguinte, entro no salão de beleza do nosso HG, fui dar um abraço no meu amigo e parceiro Gerson e ele fala algo com alguém e o chama de Romário. Pera aí, você se chama Romário? Foi você e não o baixo, eu só trato o Romário de baixo, que achou o meu dinheiro? Sim fui eu, estava caído no saco do terno.

Dei um abraço e um beijo, prometi tomarmos cervejas juntos, mas não cumpri o trato, mas como sabia que seria difícil deixei a cerveja paga.

Obrigado pelo belo exemplo, você ganhou milhares de pounds no meu conceito.

É preciso parar, ficarei dias e dias escrevendo minhas memórias deliciosas com vocês, pois teria que falar do Dudu Vaze sua estreia, do Casão e seu contrato sob suspeita com a Magic Paula, do Cabral, do Canário e nossa viagem a Cardiff, de todos os São Paulinos e o desespero na derrota para o Atlético Goianiense, das meninas, Padrão e Mylena com Y , que já escrevi em meu Blog, da que voou em meu sonho e no dia seguinte ficou assustada pois tinha voado de verdade, da vergonha que estou tendo do Warte e da medalhinha de campeão no bilau, piadas da Magic Paula, do amor pelo marido e ciúmes do filho da Virna, dos namorados e maridos que trabalham juntos, da alegria do Robson e da sapatolha de 30 gramas ou menos isso, da doce figura do Xuxa e sua hermenêutica, conveniente da lei brasileira aqui em Londres; da figura agressiva para alguns e suave para mim do Oscar, do obstruidor de caminhos Álvaro José, da Luiza Parente e seus comentários sempre da única página que leu do meu livro em dez dias, da inteligência e classe da Roberta Pizza e os segredos que só o marido, Álvaro José e Mauricio Torres, sabiam e agora eu e todo o povo brasileiro, das conversas com Denise e seus mistérios do voley, do Paulo Henrique e seu crachá, do Mauricio e sua família, do Marcos sempre entubado na sala da Record News, do Tata e seu colchonete no cativeiro, do Donadolo me chamando de professor todo o tempo. Do Rafael Ribeiro e sua juventude, do Toninho guerreiro e sua aula sobre blog que me deu no avião, da Janaína Frare e seu carinho, do Marcio e o sofrimento de vê-lo ao telefone, primeiro com o sogro, depois com esposa, os dois no hospital, da Adriana, sempre bonita e o jeito como as câmeras gostam dela.

Enfim, um time campeão que tive a honra em fazer parte. Tenham certeza de que vocês estarão para sempre no meu curriculum de vida, no de trabalho é fácil.

Enfim um belo time muito bem dirigido.

Douglas, Grego e Sergio, obrigado pela confiança, gostaria de ficar até o final e levantar o caneco junto, mas meu dever com o São Paulo não me permitirá esse prazer e desfrutar dos jogos como nunca.

Que Deus abençoe a todos, com carinho.

René Simões.

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