Desculpe, não deu

Da FOLHA

Por JUCA KFOURI

”Não se iluda, leitor. O que você vê aqui não é uma coluna. E há bons motivos para isso”

RARA LEITORA, raro leitor, desculpem, mas não deu.

Sim, é verdade que me preparei para este dia nos últimos quatro anos. Quis muito, fiz de tudo mesmo para estar aqui em Londres, com o mundo inteiro, os melhores, nesta Olimpíada.

Só que a vida é tão cheia de imprevistos, repleta de acidentes, traiçoeira, que, quando você menos percebe, pronto, ela aparece zombeteira e te passa uma rasteira.

Deixei tudo bem preparado, planejei cada minuto, mas, na hora agá, que culpa tenho eu se acabou a bateria do computador?

Ah, mas por que você não ditou pelo telefone? Telefone? Meu telefone, por azar, esqueci no hotel e não encontrei um só membro da nossa equipe para pedir um emprestado.

Além do mais, quando as coisas não querem dar certo, não dão mesmo. O lugar em que eu estava era longe, muito longe, e o jogo durou muito mais tempo do que eu previa, até com prorrogação e pênaltis.

Tinha, também, o problema da língua -ou você quer que além da minha eu fale a dos outros?

Ventava, além do mais. Ventava demais, entrou areia nos meus olhos, me deu uma alergia danada, tive uma crise de espirros que vou te contar. Depois, quando achei que ainda daria, descubro que o wi-fi pifou. Pifou! Simplesmente pifou. Culpado, eu?

Mas sou brasileiro, não desisto nunca, com muito orgulho, com muito amor.

Tentei novamente. Só que me bateu um cansaço que vou te contar…

Sabe quando dá aquela leseira, as pernas pesam, o corpo todo dói, a cabeça não pensa, um sono danado? Pois foi exatamente assim. Fiquei bem pra lá de Marrakech.

E pensei, acho que pensei muito bem, aliás, responsavelmente: “Numa dessas, se insisto, sou capaz de me machucar. E vai ser pior para todos, vou dar trabalho para o médico, enfim, por mais que eu saiba que não vim de tão longe para refugar bem na horinha, fazer o quê? Sou gente, não sou máquina, ou você acha que alguém queria mais do que eu? Além do que, convenhamos, estar aqui, simplesmente estar aqui já é uma vitória, né não?”.

Por isso, raro leitor, rara leitora, você que vá me desculpando aí, sei que havia uma certa expectativa sobre o meu desempenho nesta cobertura, mas não deu, simplesmente não deu, se tivesse dado teria dado, mas não deu, se quiser entender entenda, se não quiser o problema é seu, vou continuar por aí e, se duvidar, daqui a quatro anos eu volto, porque valeu como experiência.

Não se dar bem faz parte, não se pode ganhar sempre, e o que me interessa é que minha chefia, que é do ramo, ao contrário de você, me entende, me compreende, me respalda e me paga. Com o seu dinheiro, inclusive. See you in Rio!

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