Da máfia russa aos fundos pensão e tráfico de influência
Por JOSÉ MENEZES GOMES (Professor do Departamento de economia e do Mestrado em Desenvolvimento socioeconômico da UFMA e Doutor pela USP)
O Corinthians tem sido colocado recentemente como o time com mais apelo de marketing do país. É o que mais arrecada em patrocínio. Mais até que o Flamengo, antes de Ronaldinho Gaúcho, que possui a maior torcida do país.
Parte principal desse êxito comercial é atribuído a contratação do atacante Ronaldo.
Entretanto, é importante irmos além da aparência. Para tanto é decisivo reconstituirmos alguns elementos determinantes desde a parceria com a MSI, seguido da queda para segunda divisão, até chegarmos ao suposto boom atual.
O envolvimento político e empresarial desse time remonta ao ano de 2003, a eleição de Lula da Silva e a expansão dos fundos de Pensão e da reforma da previdência. Um ano antes surge a Hypermarcas, a grande protagonista do patrocínio atual.
O que aconteceu com esse time na era Lula, de 2003 a 2010, parece quase milagre.
Da mesma forma que surge o mito Lula, temos também o mito da grande gestão do Corinthians, onde o ex-vice presidente Andrés Sanches, cúmplice da era MSI se converte em presidente na era atual.
Logo após sua nova filiação ao Partido do ex – Presidente se transforma em chefe da delegação brasileira na copa do mundo e em seguida, mesmo sem ter estádio, não só consegue recursos de R$ 335 milhões do BNDES, via a empreiteira Odebrecht, para construir um super estádio que sediará jogos da copa do mundo.
No primeiro momento o time estava endividado, sem jogadores de expressão, sem estádio, sem centro de treinamento, sem perspectiva de títulos. De repente se associa a empresa Media Sport Investments (MSI) de Kia Joorabchian.
Com US$ 52 milhões o Corinthians comprou grandes jogadores da Argentina: Carlos Tevez (Boca Júnior) e Sebastián Domínguez (Newell’s Old Boys), como também os brasileiros que atuavam na Europa: Carlos Alberto (FC Porto), Roger (Benfica Lisboa) e Gustavo Nery (Werder Bremen). Em seguida contratou o ex-treinador Daniel Passarella da seleção nacional Argentina. Dai surge o título de 2005 e as denúncias de favorecimento pela arbitragem.
Segundo o Promotor Público José Reinaldo Guimarães Carneiro “A transferência de estrelas de futebol é ideal para a lavagem de dinheiro”(…) “Com o monopólio de jogadores, a origem dos milhões pode ser facilmente apagada”.
O jornalista desportivo Juca Kfouri afirmou que “Para Russos ricos que querem limpar seus milhões e que estão interessados em futebol, o passo para a América do Sul é pura lógica”.
Na mesma linha o ex- vice – presidente Antônio Roque Citadini, líder da oposição interna disse: “como “gangsters”, os novos investidores caem em cima do Corinthians”. Romeu Tuma ex – Conselheiro do Corinthians, ex-parlamentar e ex-chefe da Interpol de São Paulo, colocou o serviço secreto contra a misteriosa companhia. Ele enviou à Promotoria um dossiê com 3000 documentos sobre os supostos investidores. Segundo ele “todos têm contatos com a Máfia”. Por esses depoimentos parece que o Corinthians tinha acabado por se associar a uma agência de troca de dólares sujos da ex- União Soviética vindos da privatização daquele patrimônio estatal.
Tudo começou com uma viagem à Londres do ex – presidente Alberto Dualib, quando teve uma reunião organizada por Kia Joorabchian com o bilionário russo Boris Berezowski . Nesse momento o mafioso prometeu, também, construir um estádio novo para esse time.
A promessa era transformar o Corinthians numa variante sul – americana dos “Galácticos” do Real Madrid.
Segundo a Revista Der Spiegel de 18/04/05, investigadores de um grupo especial para combater o crime organizado rastrearam o dinheiro em Nova Iorque, no Caribe, no Reino Unido e no Cáucaso a partir da suspeita de que dinheiro vinha da Máfia Russa.
O desfecho dessa parceria foi uma gigantesca dívida para o Corinthians e a queda para segunda divisão.
Estes oligarcas russo estão efetivamente na mobilização de muitos jogadores para os times russos e suas empresas patrocinam também times grandes na Europa. Abramowitsch, oligarca da antiga União Soviética é tratado como grande benfeitor do antigo Clube Desportivo do Exército CSKA. Este fato pode ter influenciado a quase vinda do Vagner Love para o Corinthians.
Na etapa seguinte Sadia e Perdigão que especulavam no mercado de derivativos, onde tiveram grandes perdas, criaram a Brasil Foods com o apoio do BNDES, na fusão da Sadia, Perdigão e Batavo, e imediatamente já passou a ser a grande patrocinadora, não só do Corinthians como do Flamengo.
As operações com derivativos cambiais levaram a Sadia a registrar em 2008 o primeiro prejuízo anual de seus 64 anos de história. No ano, as perdas líquidas chegaram a R$ 2,5 bilhões. A empresa denominada de Brasil Foods, nasceu com uma dívida líquida de R$ 10,4 bilhões. A maior parte herdada da Sadia, que fechou o primeiro trimestre deste ano com uma dívida líquida de 6,8 bilhões de reais, sendo 47,5% desse valor com vencimento no curto prazo (Revista exame de 19/05/2009).
Por outro lado, o Banco Panamericano, que estava quebrado devido as suas suspeitas operações, acabou sendo comprado pela estatal Caixa econômica federal e imediatamente tornou-se mais um patrocinador do time do ex – presidente, pagando R$ 7 milhões mensais, por um espaço de pouca visibilidade na camisa.
As empresas que fazem parte da Hypermarcas entre elas a Brasil Foods, fazem parte de um projeto do BNDES de fortalecer empresas nacionais para atuação como multinacionais no mercado externo. A Hypermarcas é chamada de a multinacional caipira. Trata-se de uma estratégia dita nacionalista tendo com base empresas sem muita expressão no mercado que a partir do dinheiro público procuram concorrer com as tradicionais empresas monopolistas.
A bozzano, produtora de barbeadores, no Brasil passa a tentar concorrer com a Gillete. De um lado Ronaldo faz a propaganda da Bozzano e do outro Kaka faz o anúncio da Prestobarba da Gilette.
Da mesma forma empresas ditas nacionais, que estavam quase que desaparecidas no patrocínio de times, no país, voltam a patrocinar grandes equipes como a Penalty (Vasco), Topper (Atlético – MG e Grêmio) e a Olympicos (Flamengo), enquanto parte de suas fabricas se instalam na China, com suas precárias relações de trabalho, sempre com o apoio do BNDES.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se comprometeu em contrato a subscrever até a totalidade da emissão de debêntures no valor de R$ 1,099 bilhão aprovada pelo conselho de administração da Hypermarcas. A operação visava capitalizar a empresa para o pagamento da compra do laboratório Neo Química, em dezembro de 2009, e manter seu apetite de aquisições.
Desde o ano passado o BNDES negociava uma forma de capitalizar a Hypermarcas por meio da sua subsidiária de participações, a BNDESPar, como forma de sustentar o avanço da empresa no setor farmacêutico, considerado estratégico pela política industrial do governo (Revista Época 07/10/10). Parece que a torneira dos grandes patrocínios do futebol está ligada a torneira dos recursos públicos para essas empresas, que crescem numa velocidade acelerada e não às potencialidades de marketing de Ronaldo.
Essa nova etapa de patrocínios no futebol brasileiro com destaque para a Hypermarcas retoma uma mesma finalidade da era Parmalat: acelerar o processo de fusão e aquisição na afirmação de um grupo monopolista visando liquidar seus oponentes para impor um preço de monopólio.
Sua estratégia de aquisições num curto espaço de tempo se assemelha a estratégia da Parmalat no início dos anos 90. Parte das empresas que pertencia a Parmalat agora faz parte da Hypermarcas e patrocinam o rival. É bom lembrar que a Parmalat faliu mundialmente.
A Perdigão S.A em maio de 2006, já tinha adquirido 51% das ações da Batavia S.A. Em 2008 comprou os outros 49% que eram de posse da Parmalat, se tornando a única dona da Batávia.
Essa Companhia de capital aberto, é controlada desde 1994 por um pool de fundos de Pensão ligados ao PT e a CUT. Na retaguarda desse novo boom do Corinthians estão as relações de poder vinda do governo Lula da Silva, as empreiteiras, os fundos de Pensão e especialmente o dinheiro público vindo do BNDES.
Essa é a mesma combinação de fatores que permitiu o processo de privatização das estatais e a reforma da previdência.
O estádio que o mafioso russo prometeu na fase da MSI agora parece que vai sair tendo como base o dinheiro público. Esse é o segredo do atual boom do time do coração do ex – presidente.
Parece mágica mas empresas com dificuldades financeiras se tornaram os grande patrocinadores desse time. O “gordo” só leva a fama de ser um grande vendedor de anúncios. O palmeiras foi laboratório da primeira experiência de expansão da Parmalat a partir do abundante crédito vindo das baixas taxa de juros da união europeia.
Somente com crédito abundante é possível essa avalanche de aquisições num espaço de tempo tão curto feitas pela Parmalat e agora pela Hypermarcas.


