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Palavra do Magrão

Tudo pelo poder

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=5972

Incrível como os donos do poder no futebol mundial perdem com facilidade o senso do humanismo. Agora mesmo ainda tento assimilar a sensação do desconforto que tomou conta de mim ao ler que a Confederação Africana de Futebol puniu a seleção do Togo por não disputar a copa das nações africanas. A decisão foi depois de um atentado matar alguns integrantes da delegação daquele país e ferir outros tantos.

Estarrecido com a informação, demorei vários minutos até voltar ao normal. E me pergunto: onde anda a sensibilidade desses cidadãos que perderam absurdamente a noção de lógica e o espírito de solidariedade? E não me venham com o discurso xenofóbico de que isso só ocorre porque os africanos assim o decidiram, como se não houvesse dedo da Fifa nessa história. Da federação e de sua filosofia e pretensão de passar por cima das leis nacionais dos países que a compõem.

Vejo e sinto em cada detalhe dessa decisão algo como a mão de Mefisto a influenciar perdidamente o Fausto, do clássico de Goethe. Nas encarnações anteriores, Fausto vendia sua alma a Mefisto em troca de determinados bens universalmente desejáveis. Ou seja: dinheiro, sexo, poder, fama e glória. Tudo o que, infelizmente, podemos acompanhar nos reality shows da atualidade. Para essas conquistas ele necessita se transformar e o único meio disponível para tanto é radicalizar, transformar o mundo físico, social e principalmente moral.

Quando atentamos ao fato de que o poder no futebol é extremamente centralizado e praticamente intocável, dada a estrutura construída a partir da riqueza acumulada, veremos que interpretações como a da Confederação Africana de Futebol não passam de um duro exercício deste poder em que não cabem emoções ou subjetividades. Algo, enfim, absolutamente inumano.

Além disso, esse tipo de atentado aos sentidos só ocorreu porque do outro lado estava um pequeno país africano sem tradição e sem recursos, muito menos capacidade de se defender adequadamente contra o autoritarismo do organismo central. É sempre mais fácil bater no mais fraco, sabedor de que este não pode reagir segundo as leis de Newton, e que fica à deriva neste mundo em que o mercado é quem estipula as políticas globais.

O massacre sobre a estrutura fragilizada novamente me lembra Fausto. Especialmente quando este percebe que na área onde realiza seu sonho de grandeza e desenvolvimento há, encravada em uma colina, uma pequena ilha de paz e de amor e que é, desde muito tempo atrás, ocupada por um simpático casal a oferecer hospitalidade e ajuda aos necessitados.

Com o passar dos anos, eles se tornam a única fonte de vida e de alegria naquela terra revirada que perdera a identidade. Em seu jardim eles cultivam tílias que enlouquecem Fausto, já que ele sente que elas representam aquilo que mais faz falta ao seu empreendimento e que nos dias de hoje se tornou obsessão de muitos: a alma da natureza. Sempre em contraponto à volúpia humana na busca por riqueza.

Até o momento em que ele resolve se livrar do casal de velhinhos, os quais não têm como se defender, sem querer saber detalhes da expulsão. Atitude típica dos nossos tempos. Ações impessoais e indiretas mediadas por organizações estruturadas para tal. Mais ou menos como se fez com a delegação do Togo, que inadvertidamente provocou uma série de dúvidas (ou certezas) sobre a capacidade de o continente africano elaborar corretamente uma Copa do Mundo que está prestes a ser iniciada na África do Sul. E ainda expôs o quadro bélico que persiste em várias regiões africanas.

Tudo pelo poder e pelo dinheiro. As centenas de tiros, mais que atingir os togoleses, feriram profundamente o coração da Fifa, que não só escondeu a sua preocupação como se fechou aos gritos de dor e sangue dos feridos do ônibus em que viajavam os artistas do seu “circo”. O show tem de continuar.

Mas isso é absolutamente secundário se lembrarmos de que tudo o que fazemos deve ter em mente o ser humano. Todo poder é efêmero e acaba em si mesmo. Exercer esse poder com pitadas de sadismo como neste caso é tentar se esconder no seio da própria ignorância.

Esta decisão é tão pouco humana que beira à loucura dos déspotas, dos fascistas e nazistas da história da humanidade. É necessária uma reação de intenso efeito que os faça refletir sobre o que apenas são e o quão pequenos a morte nos faz. Esses senhores é que deveriam estar naquele ônibus metralhado impiedosamente pelos guerrilheiros. Talvez assim aprendessem alguma coisa.

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Um comentário sobre “Palavra do Magrão

  1. Rafael Costa

    Esta decisão é tão pouco humana que beira à loucura dos déspotas, dos fascistas e nazistas da história da humanidade.

    Só para completar a frase, faltou ele incluir os comunistas como “déspotas”

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