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Palavra do Magrão

O diabo não é Deus

Por SÓCRATES

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3382

Certa vez, ao ver determinado bigode no Palácio do Planalto, com a naturalidade que lhe é peculiar, não sei exatamente por que, lembrei de outra figura que adorou usar aquele espaço. Em vinte anos, esses dois personagens de nossa história protagonizaram momentos marcantes da nação.

Um, o presidente Collor, parece ter surgido do nada. Com um discurso populista, aproveitando o vazio provocado pelo então recente processo de redemocratização do País, soube como encantar os donos do poder desta República, tão dados à preservação de seus privilégios e responsáveis por nossos fantásticos índices de exclusão social. Arregimentou os mais importantes eleitores, que tudo fizeram para colocá-lo no Planalto. Grana e mídia, infelizmente, ainda continuam fazendo presidentes por aqui (ainda que hoje tenhamos por lá um ex-torneiro mecânico).

Além disso, sua absoluta insensatez o fez utilizar todas as formas de golpes baixos para derrotar nossos sonhos de um país melhor. A primeira aparição, nos idos de 1990, com a faixa verde-amarela, já mostrava a sua personalidade. Uma aposta que dera certo. Aposta mesmo, pois ninguém sabia do que ele seria (in)capaz. No fundo, bastava afastar o “perigo” que se avizinhara (o mesmo Lula hoje presidente). Com os olhos alterados por excesso de adrenalina, bradava ao infinito.

O primeiro ato foi fruto de uma loucura extemporânea, corroborada pela cegueira de nossos parlamentares, os quais não se deram ao luxo de analisar o conteúdo e a profundidade do descalabro. Pobre povo brasileiro, nem representado é! Ficamos com os nossos parcos 50 dinheiros, enquanto os poderosos se deliciavam com as sobras que ofertamos.

Cercou-se do que mais bruto possuíamos. Outro bigode maltratado passava insistentemente o chapéu por todas as nossas esquinas industriais. O cofre, como o seu dono, não parava de engordar.

Naqueles poucos anos, o País foi usado para fins tão escusos que mais parecia um bordel. Dos de mais baixo nível. Gradativamente, seus avalistas se deram conta de que a sangria era muito maior do que estavam preparados para suportar. Como a bancarrota era coisa de tempo, resolveram afastá-lo. E assim se fez. Desmascarado em toda a sua essência, desceu a rampa como se fosse um mártir, acusando-nos de crueldade. Como se nada de mal houvera feito.

O outro, Felipão, surgiu alguns anos depois e se fez respeitado. Desde longa data, era tido como um dos mais capazes para comandar a seleção nacional. Depois do naufrágio de duas gestões discutíveis, foi alçado à condição de comandante, com plena sanção popular – ah, se conhecesse de política como conhece de futebol! Pegou um rabo de foguete que parecia sem solução.

Depois de alguns sofridos meses em que se deparou com inúmeros problemas, viu-se tão perdido que resolveu utilizar os seus próprios métodos. Com isso, tocou em alguns interesses, que tentaram reagir de forma sôfrega. A campanha sofrida para reavaliar as suas convicções foi até certo ponto irracional. Bancada pelos mesmos donos do poder que levaram tanta gente ao purgatório quando não atendidos. Manteve-se firme, mas quase caiu do posto.

Felipão havia detectado a solução e colocara em prática um plano que passava ao largo da pequenez de algumas figuras até então soberanas. Cercado de jovens para irrigar de pureza a acomodação e aspereza dos mais antigos. Criou uma nova sociedade. Com a sua cara, o seu jeito e caráter. Apostou nessa determinada qualidade. Por isso, relevou algumas outras potencialidades clamadas pelos que conhecem do assunto.

Escolheu o caminho mais difícil, talvez o único. Pelo menos em suas teses. Quem poderá, agora, saber das possíveis consequências de outras opções? Mesmo com todas as limitações do que tinha em mãos, foi maior do que os demais. Não importa que estivessem em péssimas condições. Ele também esteve, mas conseguiu encontrar uma saída e venceu o grande desafio.

Hoje, o destino se inverte: muitos anos após, aquele que foi apeado do poder volta ao Parlamento pelo voto popular. O outro acaba de ser demitido por um clube que raramente demite seus técnicos, mesmo depois de ter tido sucesso em todas as estruturas por onde passou. O que mudou? Será que alguém se transforma como por encanto em outra pessoa absolutamente diferente? Não creio. Acredito sim na nossa eterna incapacidade de avaliar o ser humano em sua plenitude: o santo não pode virar diabo, assim como o diabo não é Deus.

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