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Palavra do Magrão

A crua realidade

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=2373

Por SÓCRATES

Logo pela manhã, ele percebeu que seria um belo dia. A névoa, que insistia em prejudicar seu esforço para vislumbrar aquele ponto distante entre dois troncos de ipê, em breve desapareceria e permitiria o aumento de temperatura e da luminosidade. Preparara seus apetrechos com carinho na noite anterior, para usufruir preguiçosamente daquele início de domingo. Sentia-se calmo para os compromissos que viriam a seguir, seu recente retorno havia sido tranqüilo.

Instalara-se, confortavelmente, apesar das inescapáveis dificuldades de readaptação que teria de enfrentar. Sentia-se novamente em casa. Pelo telefone, pôde perceber que tudo transcorria normalmente junto aos seus, e isso reforçou o seu sentimento de paz e confiança. Entusiasmado, junto aos seus companheiros, dirigiu-se para o palco do espetáculo em que seria um dos expoentes. Apesar da vasta experiência, trazia consigo, absolutamente viva, a chama dos grandes desafios. O contato com seu público representava uma emoção sempre especial. Desta vez não seria diferente.

Sua primeira participação, sempre esperada, parecia uma velha repetição de movimentos tão marcantes dos últimos anos. Um simples toque, discreto e eficiente, representaria a marca de sua verdadeira chegada, desta vez aconteceu, porém, o inesperado: o contato com o adversário, normalmente inconseqüente, provocou uma brusca rotação de tronco, que instintivamente tentou interromper. No exato instante da transferência de forças, percebeu que seu joelho não se encontrava adequadamente preparado para aquela exigência. Uma intensa e prolongada dor extraiu um grito seco, ecoando por todo o estádio, calando milhares de corações. Ainda tentou acreditar que suas suspeitas eram infundadas. Tudo não teria passado de um susto. Tentou novamente se colocar em pé para pronto retorno. Percebeu aí, definitivamente, que deveria se retirar, pois não se mantinha estável.

Os primeiros cuidados se processaram imediatamente, mas o edema insistia em crescer, limitando ainda mais seus movimentos. Sendo assim, o diagnóstico estava prejudicado. A resposta esperada às questões que partiam de seu curioso olhar seria adiada. Com imensa dificuldade, dirigiu-se para exames no dia seguinte, e o que foi detectado deprimiu ainda mais sua expectativa. A crua realidade feria a sua alma, deveria sofrer muito mais do que o imaginado, e instalara-se, pela primeira vez, a insegurança.

Já não era tão jovem, sua força de vontade estaria à prova por longos e cansativos meses. A delicada cirurgia exigiria mãos habilidosas para voltar a exercer, em plenas condições, o ofício que tanto lhe apaixona. E se o resultado não fosse satisfatório? Esta é uma situação que amedronta milhares de atletas, um momento de dúvidas intensas a assolar seus sentimentos. É fundamental ter calma para discernir o melhor caminho a tomar, além de um intenso preparo para os desdobramentos que virão a seguir. O que será crucial para o futuro destes indivíduos.

Caso seja bem orientado, encontrará mãos hábeis que devolverão a saúde necessária para exercer o seu trabalho. E voltará nas mesmas condições anteriores à lesão, para enfrentar todos os obstáculos futuros. Se não, sua carreira correrá sérios riscos. Como em geral não possuem fundamentos para fazer a opção correta, dependem de opiniões alheias, onde a confiança prevalecerá. Como quando eu enfrentei a hérnia de disco.

Metáfora

Há alguns anos, perguntei a um carioca como via o futebol em seu estado. Respondeu-me com uma bela e interessante metáfora: “Está acamado por ter sido infectado pelo Aedes, com sinais de dengue hemorrágica. Daqui a pouco chegará à UTI. Os agentes de saúde se esqueceram de limpar a imensa caixa de água parada e subutilizada, possibilitando a evolução dos vermes até a fase adulta. Aquela estrutura malconservada é um criadouro permanente de toda sorte de insetos, germes e necessita urgentemente ser descartada. Além disso, suas comunicações com o resto da estrutura estão em estado lastimável. O encanamento apresenta oxidação em toda a rede e podemos considerá-lo sem possibilidade de reaproveitamento. Uma ampla e consistente reforma urge. Faxina, já não basta”.

É, infeliz e gradualmente, o futebol carioca sofreu as conseqüências. O estado atual de alguns de seus clubes que o diga.

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Um comentário sobre “Palavra do Magrão

  1. CONTRA A IMPUNIDADE

    Precisamos lembrar ao senhor Paulinho, dono do blog, que nós torcedores e trabalhadores que pagam impostos e suas contas em dia; nós que participamos de eleições e tentamos nos fazer representar da melhor maneira possivel, estamos INDIGNADOS com a demora referente ao processo de apuração e punição dos responsáveis pelo caso do gás na semi-final do campeonato paulista de 2008.
    Mesmo após o JORNAL LANCE ter divulgado que durante as escutas telefônicas no caso da máfia dos ingressos, foram encontradas/criadas provas ( gracações de conversas ) do envolvimento de torcedores e dirigentes da Sociedade Esportiva Palmeiras, estranhamente notamos “morosidade” no processo.
    Gentilmente solicitamos ao caro jornalista, que nos informe, cobre, investigue.
    Nós não queremos de forma alguma ter gente desta espécie vestidos de representantes mascarados de pessoas de bem em nosso meio.

    QUE SE INVESTIGUE, QUE JULGUEM E PRINCIPALMENTE QUE PUNAM OS RESPONSÁVEIS.

    NÃO A IMPUNIDADE !!!

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