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Blog do Paulinho

Palavra do Magrão

Da Carta Capital

http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=1101

 

Outra visão

 

Sócrates

Quando jogava em Ribeirão Preto e ainda fazia faculdade, a rivalidade entre os dois times da cidade era acirrada e as provocações eventualmente produziam conflitos de diferentes intensidades. Umas mais bem-humoradas – como desfilar com um caixão mortuário com o nome do perdedor –, outras nem tanto. Mesmo assim a violência era infinitamente menor do que é hoje. Dentro de campo imperava algo lúdico, mais belo e com maior preocupação com a estética do espetáculo do que com o uso de artifícios para buscar, através de inúmeros métodos, vantagens nem sempre lógicas ou lícitas.

 Porém, jogando futebol, foi nessa época a única vez em que me senti agredido, humilhado e surpreso com um acontecimento que, mais à frente, vocês tomarão conhecimento. Era um desses clássicos da cidade. A partida não estava lá grande coisa e o jogo se arrastava para um final melancólico, já que nenhum dos dois times havia feito o suficiente para vencer. Foi quando, em uma jogada na área adversária, cheguei tarde na bola e o goleiro do Comercial conseguiu controlá-la com tranqüilidade. Estanquei a minha corrida e já me preparava para voltar ao meio-de-campo, esperando a reposição da bola, quando, inesperadamente e sem nenhuma causa compreensível, o jogador adversário ainda com a bola nos braços me desferiu um soco certeiro e violentíssimo, como se estivéssemos em um ringue de boxe.

Nocaute. Com o rosto dolorido e vermelho, desmoronei no gramado como se fosse um traste inválido. Caído, ainda recebi um chute de outro inimigo (visceral), que nem sei de onde veio e onde me atingiu, pois naquele instante tudo que de mim se aproximava lembrava os antigos gladiadores do Império Romano em plena arena do Coliseu a massacrar quem por lá estivesse, e só pensava em me proteger.

A auto-estima nos segundos seguintes a uma agressão desse tipo parece ser obra de algum psiquiatra maluco, inventando um monstro. Mas só por alguns segundos, já que nosso instinto nos leva a reagir de forma dura e proporcional ao que estamos sentindo, o que nem sempre é bem administrado.

 O que aconteceu posteriormente, no complemento do jogo, não vem ao caso analisar neste momento, porém, alguns anos mais tarde fui convocado a prestar um longo depoimento sobre esse episódio e só aí me dei conta de que os dois jogadores haviam sido indiciados por aquela agressão. E nem fui eu quem tomou a iniciativa de entrar com o processo e, sim, um advogado que assistia à partida. Como tudo aquilo culminou eu não sei, mas aprendi ali uma excelente lição que muitas vezes me fez refletir sobre como agir quando estivesse em campo e na presença do público.

 Por outro lado, no domingo 1º acompanhamos uma grande confusão ocorrida no Recife, durante o jogo entre Náutico e Botafogo. O pivô foi o zagueiro André Luiz. Revoltado com a sua expulsão do gramado, fez gestos obscenos para a torcida e chutou um copo d’água, que acabou atingindo um torcedor. Isso provocou uma ação da PM presente ao Estádio dos Aflitos, que, acredito, deva ter dado voz de prisão ao jogador mesmo antes de ele ter esperneado e reagido, o que acabou sendo entendido também como outro delito: desacato à autoridade. Todo mundo saiu em defesa do jogador, caracterizando a ação da PM como abusiva.

 Na verdade, existe neste meio uma tendência a todos se acharem imunes em relação aos seus atos – desviando eventuais penalidades para a esfera esportiva –, esquecendo-se de que uma partida de futebol é um espetáculo público e que as regras sociais – ou seja, as leis – devem ser respeitadas por todos os participantes, inclusive e principalmente pelos atletas que são os artistas do mesmo.

Não sou especialista em Direito, mas a minha intuição, caso esteja certa, leva-me a achar que as atitudes do jogador do Botafogo (exatamente como as dos meus dois algozes) extrapolaram as divisas do campo de jogo e que alguma atitude deveria ser tomada imediatamente após a sua explosão inconseqüente. Não me pergunte qual, pois não saberia dizer. Muito menos se a ação da PM foi correta ou não.

 O que me interessa discutir aqui é o comportamento de determinados atletas (ou uma boa parcela deles), quando são contrariados em suas convicções. Agem como meninos mimados, mesmo usando calças compridas há muito tempo. Necessitaríamos de muito mais papel para entender o que aconteceu, mas de uma coisa não tenho nenhuma dúvida: há de se educar melhor esse povo para que possa respeitar e ser respeitado.

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7 comentários sobre “Palavra do Magrão

  1. henrique salgado

    caro paulinho
    ja lhe escrevi isso antes, e tambem no seu login do youtube
    assista a uma partida de rugby.
    esqueca as regras todas que realmente sao dificeis
    apenas analisem o comportamento do arbitro e os jogadores.
    uma decisao do arbitro jamais sera contestada. so fala com ele o capitao do time, com respeito, calma e educacao.
    se o futebol fosse assim, te garanto que tudo mudaria. no campo, nas arquibancadas e na sociedade.
    para o seu engrandecimento esportivo, aprenda rugby. os argentinos ja o fizeram faz tempo e nem vamos comparar nossa sociedade com a deles.
    perdemos em proporcao pior daquela que ganhamos no futebol
    abracos

  2. marco guarnieri

    Valeu Doutor. Assim como foi craque dentro de campo, seus comentários acerca de um triste fato em nosso futebol, mostra também, ser craque fora dos gramados.

  3. euclydes zamperetti fiori

    Sim, agora estou com Socrates e foi oq entendi quando da reação dos Pms, porem, o publico tb agiu da mesma forma e anterior ao comportamento de André Luiz.
    Nos falta cidadania e ñ. me venham com o papo lá fora tb é assim, pô vivo aq e comparações com erros é premiar estes, temo sim q. mudar e fim de conversa.
    Socrates, por favor diga ao seu idolo ex-pseudo trabalhador, para q. ñ fale asneiras contra as leis quando esta venha a ferir os interesses do cara q. ficou rico juntamente com seus filhos. Será q. foi com o recebido mensalmente na contra partida do trabalho remunerado?

  4. Samuel

    Esse Magrão nunca foi profissional, saiu da Itália com todo mundo desejando que isso acontecesse o mais rápido possível,tamanha falta de profissionalismo que ele demonstrou quando jogou na Fiorentina.Não vingou no melhor futebol do mundo, isso é uma verdade que ninguém diz.
    Por que esse blog não dá espaço ao Raí? Ninguém precisa me responder, eu sei a resposta:É porque esse blog é de corintiano.

  5. Daniel Lopes

    Paulinho, venho aqui alertar que a diretoria do Sport pretende desrespeitar o estatuto do torcedor ao vender ingressos só na quarta feira à torcida corintiana e ao que tudo indica não liberará os 10% de ingressos a torcida adversária.Onde está a diretoria Corintiana que vive arrotando valentia dizendo” Aqui é corintcha, Rapá”.Tá na hora dessa gente mostrar serviço e defender os seus torcedores.

  6. Leonardo

    Que texto bacana! Olha, Paulinho, fale aí com o Sócrates, se puder, que o povo deve mesmo ser mais bem educado. Mas não só pelo que se vê nos estádios de futebol. Trabalhando com atendimento ao público em agência bancária percebo diariamente a grosseria com que os clientes tratam os bancários mas deles esperam cortesia inglesa…

  7. Lara

    Falou o meu ídolo, eu assino embaixo!

    Agora, chamar isso de atleta?!

    São pessoas que não tem o menor espírito esportivo, senso ou qualquer outra coisa e eu não chamaria de atleta. Ou então, quem está formando esses “atletas”?!

    Não seria passada a hora de adotarmos uma visão mais holística da coisa?! Nunca achei que um clube deveria formar só atletas, mas seres humanos.

    Os meninos que “nascem” dentro dos clubes precisam conhecer outras coisas que fazem parte do esporte, além dos fundamentos do futebol ou de qualquer outra categoria.

    Mas fica extremamente difícil pensar nisso num ambiente como o de muitos clubes brasileiros, onde a “máfia” começa na base.

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