Surge outra vítima do “Monstro”

Do Diário de Pernambuco


O que nunca se esquece


 


Encorajada pela história de Joanna Maranhão, ex-nadadora revela que também foi abusada sexualmente por Eugênio Miranda na infância



Ana Paula Santos e Marcel Tito
Da Equipe do Diario


 


Na sala reservada ao departamento de natação do Sport, o professor entra com a aluna de 8 anos. Coloca a criança no colo. Suavemente começa a acariciar os seios dela. Leva o dedo às partes íntimas da menina. Abusa de sua inocência. O ritual se repete por quase um ano. A vítima não é Joanna Maranhão, que recentemente revelou ter sofrido abuso sexual na infância. Mas o acusado é o mesmo: Eugênio Miranda. Ontem à tarde, Alice (nome fictício a pedido da entrevistada) revelou ter sido abusada sexualmente há aproximadamente 10 anos pelo professor de natação. Decretou o fim do silêncio encorajada pelos acontecimentos envolvendo a nadadora pernambucana.

Sentada ao lado do namorado numa praça de alimentação de um shopping da cidade, Alice é uma mulher comum na aparência e nos interesses. Não nas marcas cruéis de um passado renascido há pouco. “Quando tomei conhecimento do assunto (o abuso de Joanna), logo sabia que era ele. Tudo estava apagado na minha cabeça e veioà tona rápido. Fui tomada por uma confusão de sentimentos. O nome dele nem tinha aparecido, mas sabia que era Eugênio”, acusa.

As histórias das duas, Joanna e Alice, têm muitas semelhanças. A mesma relação de confiança que Eugênio Miranda desenvolveu com a família de Joanna, fez com a de Alice. Principalmente com a mãe. “Vivi os mesmos conflitos de Joanna. Tinha medo de falar e não acreditarem em mim. Ele se aproximou muito da minha mãe. Tratava ela como uma espécie de confidente. Contava que a esposa já não lhe compreendia como antes e que pensava em separação. Por ele ser tão amigo dela, às vezes, cheguei a pensar que a doente da história fosse eu. Que nada daquilo estava acontecendo, pois como podia uma pessoa agir tão diferente. Hoje não tenho dúvidas que esse é o modo dele agir”, revela.

Sentindo-se acuada e sem coragem de revelar o que vinha acontecendo a sua mãe, Alice passou a pedir que trocasse o horário de seus treinos insistentemente. “Não pensei duas vezes para abandonar minha turma da escola quando minha mãe atendeu meu pedido”. Com a mudança, a ex-nadadora passou a não encontrar mais o treinador. “No meu caso, acho até que foi mais fácil esquecer da cara dele e de toda situação. Não o via mais. Tinha medo dele”, contou.

“Tio Eugênio”

Certa vez, ela lembra que um colega de natação chegou a flagrá-los na tal salinha. “Ele virou-se para mim e disse: ‘eita, fulaninho atrapalhou tudo”. Este mesmo menino chegou a perguntar a Alice se ela era a namorada do “tio” Eugênio. “Ele sempre arrumava um jeito de ficar a sós comigo na salinha”, completa.

Os abusos tornaram-se freqüententes e extrapolaram a porta da pequena sala, os portões da Ilha do Retiro. Por uma única vez, chegou à casa do acusado. “Teve uma competição e minha mãe não podia me levar. Ele então disse que me levaria para casa dele após o treino e de lá iríamos ao campeonato. Quando chegamos, ele deu um jeito de pedir para a filha fazer algo e me chamou no quarto do filho, sob a desculpa de me mostrar um gráfico com informações sobre meus tempos. Mesmo assustadíssima, fui ao quarto e ele me colocou no colo. Depois começou a alisar meu peito e pegou nas minhas partes íntimas”, declarou Alice, interrompendo a entrevista para chorar. Foi amparada, abraçada pelo namorado, que só tomou conhecimento de todo drama vivido pela amada quando foi publicada reportagem abordando o caso de Joanna. “Ela sempre foi muito reservada. Nunca a forcei a falar nada. Sempre disse o que sentiu vontade”, comentou o namorado.

Recuperada momentaneamente, as lembranças continuaram a emergir em Alice. Mais chocantes, mais difíceis de esquecer, como um beijo dado por Eugênio. “Lavei minha boca com sabão amarelo, detergente. Estava me sentindo a pessoa mais imunda do mundo. Tinha vergonha de mim, da minha falta de coragem”, revelou, esfregando, após todos esses anos, as mãos no rosto (parecia tentar limpar, se livrar de tudo o que passou).

Sem trauma da piscina

De tanto evitar contato com Eugênio, Alice conta que a sua mãe perguntou, na época, se havia acontecido algo. “Ela iria dar uma festa e disse que gostaria de chamá-lo. Pedi que não. Até agora, só tive coragem de contar para ela que ele me colocou no colo”. Coragem que lhe chegou aos poucos. Hoje, no entanto, Alice se sente fortalecida e desabafa. “Não tenho medo dele. Sinto apenas raiva, nojo por não ter feito nada antes. Tenho raiva de mim mesma porque achei que a suja fosse eu. Peço a outras possíveis abusadas que não se deixem abater. Nunca se achem as erradas da história. Contem tudo para seus pais. Sejam fortes e sigam em frente”. Um dia, Alice ainda pensa em retornar às piscinas. “Não deixei de amar a natação. Penso em voltar a nadar no master. É mais tranqüilo e não tem treinador berrando no seu ouvido. É tudo mais leve”, finaliza, se despedindo das lágrimas com um largo sorriso.

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