Parabéns Tostão !

Por Roberto Vieira


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Uma homenagem ao Mineirinho de Ouro.


Tostão.


Tostão, meu ídolo de infância.


Tostão que hoje completa outro giro na Terra…



NO MEIO DO CAMINHO TINHA UM TOSTÃO


 


POR ROBERTO VIEIRA


 


O estado de Minas Gerais nunca me trouxe boas recordações. Embora fossemos tratados como reis, havia alguma coisa de errado com aquela terra de silêncios e montanhas. De ferro. Sei que Wright e Finney pensavam como eu. Matthews, não. Mas Matthews sempre foi um sujeito diferente. Driblava como um sul americano, sonhando em viajar pelo mundo ensinando futebol. Se fosse vivo ainda estaria por aí, fintando em nome da Rainha.


O 1×0 no Estádio Independência foi cruel. Nunca entendi direito aquele resultado. Tive um gol anulado, ainda não sei por quê. As bolas rondavam a meta americana e nada. De repente eles chegam e gol! Poderia até rir se não lembrasse o Times ironizando nosso enterro simbólico. Sempre é mais fácil atrás de uma máquina de escrever.


A bola não entrou.


Vinte anos depois, lá estou eu novamente diante dos mineiros. Depois que fui saber. Agora, eu não estava jogando. Eu era o treinador. O técnico campeão do mundo, insultado pelo povo mexicano. Como se eu me importasse com isso. Se um inglês se importar com o que pensa o terceiro mundo, fica em casa. E como vão ficar os países subdesenvolvidos sem a colonização inglesa?


Estava tudo tranqüilo. Apesar daquela cabeçada de Pelé. Mas nós tínhamos Banks. E quem tem Banks não tem medo de Pelé. Confesso que naquele calor o 0x0 já estava de bom tamanho, embora o saldo de gols do Brasil nos empurrasse para uma quarta-de-final contra a Alemanha. Mas o escore estava indefinido, um jogo de xadrez. E eu sentia que o gol era uma questão de quem aproveitasse primeiro uma chance, uma falha.


Até que tudo aconteceu. Do nada.


Aquele centroavante improvável pegou a bola na esquerda. Cercado por nossa armada invencível. Dois anos antes ele fez um gol absurdo no Maracanã contra nós. Deitado, fingindo-se de morto.


Pois no México, driblou o primeiro que chegou e ainda deixou o cotovelo na cara dele. Quando vi o grande Bobby Moore partindo pra cima eu sorri. De pena. No instante seguinte, calei. De medo. A bola fora tocada entre as pernas de Moore, meu capitão. Tocada sem a menor cerimônia. Um ato pouco cavalheiresco devo dizer. Na cobertura veio mais um zagueiro no carrinho. Nada. Ficou caído no chão, sem fala.


Mas lá estava Bobby Moore de novo, cercando o pé esquerdo daquele centroavante. Ele só tinha o pé esquerdo. Não era como o genial Bobby Charlton. Ambidestro. Foi só pensar nisso e ele gira sobre o corpo e cruza de direita nos pés de Pelé. Mineiro.


O resto é história.


Pouco depois, o improvável centroavante brasileiro foi substituído. Parece que antes mesmo da jogada ele já ia sair. Também me disseram que ele havia sido operado da retina um ano antes. Disseram que ele mal enxergava a bola.


Disseram que ele nasceu naquela terra de ferro e montanhas. De silêncio e poetas.


No mês de janeiro. Como eu.


Disseram pra mim que o nome dele era Tostão.


Mas já era tarde.


Eu aprendera por mim mesmo que no meio do caminho tinha um Tostão.


Tinha um Tostão no meio do caminho!

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