Palavra do Magrão
Da Carta Capital
http://www.cartacapital.com.br/edicoes/479/a-patomania/
A Patomania
Com apenas 18 anos, o jovem atacante do Milan já provoca euforia e também uma tremenda expectativa quanto ao futuro. É uma pedra preciosa, sem dúvida, mas que precisa ser lapidada com cuidado.
Sócrates
O futebol italiano sempre se caracterizou por uma compulsão pela defesa. Em conseqüência disso, todos os outros itens estratégicos podem ser entendidos como secundários. É um jogo em que se disputa cada centímetro quadrado do campo como um valor vital para o sucesso de uma equipe, e eles não deixam de estar certos nessa filosofia. Historicamente, a cultura do esporte na Itália baseia-se na obsessão tática e nas estratégias desenvolvidas em busca da excelência. Talvez em razão da dificuldade de encontrar um grande número de jogadores de inegável talento, comparando-se com o estilo sul-americano.
Quando joguei na Itália, era quase uma regra a postura tática com três zagueiros e cinco meio-campistas. E, destes, só um, ou no máximo dois, mantinha a firme disposição de criar situações de gol para os atacantes. Na minha Fiorentina de então, a coisa era ainda menos criativa: jogávamos com apenas um atacante. Com isso, as dificuldades de chegar até a área adversária eram tremendas. Não havia como fazer uma tabela sequer para envolver a dura marcação individual. Até porque meu centroavante era limitado tecnicamente.
A forma de produzir um defensor ainda hoje é uma unanimidade entre os treinadores de lá. Os atletas são preparados ao extremo para essa função tão específica, que, no Brasil, sempre foi desvalorizada. É que os jogadores brasileiros nascem voltados para o gol e, normalmente, os que se tornam defensores são os de mais baixa qualificação técnica. Lá, não! Os zagueiros são extremamente estimulados a realizar o seu trabalho da melhor maneira, mesmo que para isso tenham de abdicar do jogo em si. São especialistas e, num campeonato inteiro, muitos têm a bola em seus pés apenas por alguns minutos. Digamos que, nesse quesito, eles sejam altruístas enquanto nós somos pretensiosos. Tudo fruto das facilidades ou não para a prática do futebol.
Com o crescimento do negócio e a abertura do mercado para os estrangeiros, além do incremento da troca de informações e de conhecimento provocada pela tecnologia da comunicação, os italianos sofreram séria influência de outras culturas esportivas e gradativamente transformaram a sua forma de jogar.
O contato com jogadores mais técnicos e que precisavam de mais liberdade para exprimir suas qualidades provocou, mesmo que a contragosto dos mais conservadores, uma maior flexibilidade nos esquemas táticos. Isso permitiu o aparecimento, no futebol da Península, de estruturas comuns em outros centros como a marcação por zona. E não foi à toa que os pioneiros a utilizá-la foram os técnicos estrangeiros, que traziam experiências diferentes. E aí o Calcio italiano passou a ser jogado de forma mais parecida com a do resto do mundo. Mesmo assim, as dificuldades que um jogador brasileiro encontra ao chegar lá são imensas. Não estamos habituados a enfrentar adversários tão focados em uma determinada função, como os de lá. Continua fundamental ter uma estrutura física privilegiada associada a uma técnica diferenciada para suportar a pressão não apenas por resultados, mas principalmente de um público ávido por qualidade e exigente ao extremo.
No domingo 13, finalmente Alexandre Pato, o jovem atacante contratado do Internacional de Porto Alegre, pôde estrear na equipe do Milan. Com apenas 18 anos, já provoca euforia e uma tremenda expectativa quanto ao seu futuro na equipe. É um jogador de imensas qualidades, ainda que muito inexperiente, mas que certamente será um dos melhores do mundo em pouco tempo. É uma pedra preciosa sem sombra de dúvidas, mas precisa ser lapidada com cuidado. Foi o que eu disse a Leonardo, que trabalha no Milan ligado à vice-presidência do clube, quando me perguntou o que eu achava do garoto. Respondi que não havia possibilidade de erro em sua contratação, pois o talento extrapolava o de qualquer dos demais que insistiam em ficar no Brasil. Minha certeza se baseia na forte estrutura física que Pato tem, e que deverá ser ainda mais desenvolvida nos próximos anos. Com técnica e muita força física, não há como não acontecer o sucesso em terras italianas. E ele conta com uma facilidade a mais: estará jogando ao lado de compatriotas como Kaká, Ronaldo, Dida e outros, o que permitirá uma adaptação mais rápida. Mesmo assim, seus primeiros passos não serão nada fáceis, pois jogar no futebol italiano exige muita paciência, força de vontade e capacidade de lidar com as dificuldades inerentes àquele estilo de jogar futebol.

