Palavra do Magrão
Da Carta Capital
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Os grandes desafios
Na carreira de jogador de futebol, existem saltos enormes. Imagine o trauma de passar a titular da equipe principal de repente. É difícil saber quando se está preparado
Sócrates
Lidar com o fracasso quando há um grande desafio é uma questão de estrutura pessoal para enfrentar batalhas maiores. No futebol, existem jogadores de treino, de time e de seleção. Sem esquecer o fato de que trabalhar na presença de público é uma das coisas mais complexas que existem, porque você interage com ele o tempo todo. Por vezes o público representa um time inteiro e não é somente o 12º jogador.
Numa carreira de jogador de futebol existem saltos enormes e é muito diferente do plano de carreira das atividades que podemos chamar de “normais”. Um indivíduo que passa ao cargo de gerente a partir da linha operacional assume responsabilidades maiores, porém proporcionais ao passo dado. Mas nem por isso deixa de ser exigido a assumir uma postura diferente. No futebol, imagine o trauma que é passar a ser titular da equipe principal de uma hora para outra. De repente, sua performance passa a ser avaliada por muito mais gente e também pela mídia. É difícil estabelecer quando se está preparado para isso.
Com o tempo, alguns estímulos passam a ser mais bem conhecidos e nos tornamos menos suscetíveis a eles. Mas nesse meio o número de fatores que influenciam um jovem jogador é enorme. Quando se veste a camisa de uma equipe popular, então, as coisas se tornam muito mais difíceis de administrar. Eu cheguei ao Corinthians já não tão jovem e após concluir o curso de Medicina, e me surpreendi mesmo assim com o tamanho do assédio que me envolveu. Não havia um momento de sossego. Seja nas ruas, no clube, ou até no trânsito. Sempre havia alguém a fazer contato para uma crítica, uma sugestão ou para um simples pedido de autógrafo.
Mesmo em casa não havia como descansar. Tenho até hoje certo trauma de telefone por culpa desse período. Como morava em um apartamento pequeno e o aparelho ficava na sala, não tinha como não escutá-lo. E ele tocava a todo instante. Eram centenas de jornalistas que me procuravam diariamente para saber uma opinião, dar uma entrevista ou marcar um encontro em suas redações. Foi uma dureza aprender a conviver com isso. No início, trocava semanalmente de número e de nada adiantava. Sempre encontravam um jeito de saber o novo número e sabiam com quem: meu pai, que jamais se negou a atendê-los, ainda que com minha reprovação. Ele contava que era impossível dizer que não sabia o telefone do filho. No que tinha absoluta razão.
As variáveis, portanto, são extraordinárias. Quando fiz minha primeira viagem ao exterior defendendo a seleção contra a Argentina, em Buenos Aires, apesar da rivalidade, nada senti. Era como um jogo na praia. Geralmente me controlava emocionalmente e, por isso, sempre fui considerado um jogador frio. Agora, na estréia em Mundiais, na Espanha, como capitão do time e representando a minha nação, ao ouvir o Hino Nacional de meu País, arrepiei-me todo e quase chorei. Foi uma sensação sublime e única. Inesquecível.
A vantagem de trabalhar com e no esporte é justamente esta. Ele mobiliza todas as suas forças e você reage a elas em um grau absurdamente grande. Trabalha-se em pólos opostos de um dia para o outro. Não há como se acomodar. Ao mesmo tempo que é complicado gerir essas particularidades, é extremamente rico. Passa-se a conhecer os próprios limites emocionais.
Para ajudar, temos necessariamente de possuir qualidades que nos diferenciem dos demais. Como, por exemplo, a criatividade, que nada mais é que a capacidade de se fazer algo inesperado. Mas só é criativo quem tem conhecimento de causa. É aquele que tem uma gama maior de discernimento e de capacitação que consegue escolher caminhos alternativos para os mesmos fins. É o que faz opções ilógicas com os mesmos resultados. Conseqüentemente, é o mais difícil de ser combatido.
Outra qualidade importante é a liderança. A ação de liderança tem de ser compatível com a expectativa dos liderados ou do projeto em curso, senão jamais a teremos. O líder deve suportar o peso das conseqüências que seus atos provocam. Ele é aquele que representa o vértice, o esteio dos demais. É aquele que, com idealismo, sabe definir suas condutas e não abrir mão disso por questões menores. Tem de ter sensibilidade para captar nuances de cada indivíduo, as particularidades, as expectativas. Ele tem fundamentalmente que agregar valor e ter credibilidade. Se tiver uma conduta rígida e não souber atrair pessoas com motivações diferentes, não consegue ser líder de nada, nem dele mesmo. O fracasso, portanto, é muito mais provável do que imaginamos.

