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O sumiço das pegadas

Do ESTADÃO

Por ROBSON MORELLI

As pegadas de Sócrates, Bellini, Nilton Santos, Zinho e de muitos outros estão sem paradeiro oficial

O Brasil que os brasileiros propõem agora, independentemente das cores, passa por melhorias e recuperação em todos os setores. Também no esporte. Daí não soar absurdo, embora seja, o sumiço das pegadas famosas dos nossos craques no Maracanã, palco lendário do futebol. Mais de 30 pegadas desapareceram, ou ao menos estão perdidas em algum canto do Rio de Janeiro desde a reforma/construção do estádio em 2010, muito antes de saber que o velho e bom Mário Filho (seu nome de batismo) receberia a final da Copa do Mundo de 2014, a segunda em sua história, entre Alemanha e Argentina, com vitória dos alemães por 1 a 0.

As pegadas de Sócrates, Bellini, Nilton Santos, Zinho e de muitos outros estão sem paradeiro oficial. Simplesmente sumiram. Há outras, como as de Romário, herói do tetra, danificadas. Uma verdadeira vergonha para quem acompanha o futebol há décadas. São relíquias sem dono. Pior, sem pai nem mãe. Não há quem cuide. E se há, cuida mal.

Estamos tão vacinados com esse desleixo institucional que simplesmente passamos por cima de tudo, não damos a menor bola, quando muito levantamos as sobrancelhas em sinal de desaprovação. Ora! Estamos falando do futebol pentacampeão do mundo, de jogadores reverenciados no planeta inteiro pelo que fizeram em campo, de craques eternizados nos clubes nos quais mais se identificaram, cujos pés deveriam estar ali justamente para serem lembrados para sempre. Ocorre que eles sumiram ao vento feito rastro no deserto. É preciso responsabilizar alguém.

Esse desrespeito com a história do futebol nacional seria por si só um absurdo não tivesse acontecido no país onde também roubaram uma das taças de campeão do mundo, aquela conquistada pela nossa melhor seleção, a de 1970, ganha no México. A Jules Rimet, do tri de Pelé, Rivellino, Jairzinho, Tostão e do povo brasileiro, foi amarfanhada na antiga sede da CBF em 1983, em 19 de dezembro. Tem até um filme que conta o caso e o descaso das instituições responsáveis em preservar o bem maior – vale a pena conferir.

E assim caminha o futebol brasileiro, entregando para instituições privadas e governamentais o trabalho de preservar sua história, um museu aqui, outro acolá, na vã disposição de não deixar desaparecer o que esses jogadores fizeram ao longo da vida, e para sempre lembrar a alegria que nos deram, tão longe das jogadas, passes e dribles de hoje.

Certa vez falava com Zico num saguão de hotel de algum lugar do Nordeste que não me lembro mais por conta de um jogo amistoso da seleção. Zico, para sempre o Galinho de Quintino e incomparável aos olhos dos flamenguistas, me dizia que no auge da carreira ele não podia sair do quarto, não conseguia dar um passo para fora de quatro paredes que era cercado por multidões. “Hoje eu caminho no saguão de um hotel quase sem ser notado”. E olha que Zico, assim como Pelé, nunca caiu nem cairá no anonimato.

É essa memória que desafio a CBF e as suas fiéis associadas (federações estaduais) a preservar, resgatar, nunca deixar de reverenciar, tornar pública e ativa sem o maldito interesse em ganhar algum dinheiro ou se promover. Principalmente a CBF, que deveria se dobrar ao que esses jogadores fizeram pela seleção. Mas não, na Casa do Futebol só se pensa em fazer acordos, pagar e receber propinas e entregar o time, hoje comandado por Tite, a novos donos, os que pagam mais. O museu da seleção fica dentro da sede da entidade no Rio, trancado ao povo. Pelé montou o seu próprio museu em Santos para expor suas relíquias. No Pacaembu, em São Paulo, uma parte bonita do futebol é trabalhada com carinho. Ao que se sabe, sem ajuda das federações esportivas.

Os jogadores mais consagrados contam suas trajetórias em salas reformadas dentro de suas próprias casas. Sabem que se deixarem suas pegadas para outros cuidarem, elas vão desaparecer. Por desleixo.

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