Da Folha de São Paulo


Por Clovis Rossi


Com muito orgulho


No jogo Brasil x Uruguai, no Morumbi, ouviu-se o velho cântico: “sou brasileiro, com muito orgulho”. Orgulho de quê?


1 – Orgulho de saber que uma menina é colocada em cela com um bando de homens, violentada seguidamente e ninguém fez nada?


2 – Orgulho de saber que relatório de entidades de defesa da mulher, já em março, havia apontado abusos contra presas não só no Pará mas em outros quatro Estados e ninguém fez nada?


3 – Orgulho de saber que a governadora do Pará culpa o governo anterior, embora esteja no posto há 11 meses e não tenha feito nada?


4 – Orgulho de saber que o Ministério Público já tentara interditar o estádio da Fonte Nova no ano passado, por falta de segurança, e ninguém fez nada, deixando que morressem sete pessoas e outras 85 ficassem feridas? Só falta agora o governador culpar o antecessor, embora também esteja há 11 meses no cargo.


5 – Orgulho de ouvir o ministro da Educação dizer que a escola pública “nunca” terá a mesma qualidade da escola particular, embora a imensa maioria das crianças brasileiras esteja condenada a estudar na escola pública e, por extensão, condenada a receber menos do que o aluno da escola privada? É esse conformismo que perpetua a desigualdade obscena que prevalece há séculos na pátria. Educação de qualidade para a maioria é uma das poucas maneiras de ao menos reduzi-la.


6 – Orgulho de ver autoridades tentando provar que a menina presa com homens no Pará não tinha 15 anos, mas 19? Se tivesse 60 anos, deveriam então ser condecorados os responsáveis pela barbárie?


7 – Orgulho de ver, dia sim, outro também, cenas e frases como essa ou parecidas demonstrarem o quanto o país é primitivo? Cantemos, pois. É tudo o que resta aos bárbaros.

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