Palavra do Magrão
Da Carta Capital
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As muitas faces da seleção
O time brasileiro pode e deve jogar sempre como nos últimos minutos da partida contra o Equador. Se ficar acomodado, será difícil que evolua e amadureça
Sócrates
Está difícil entender a atual seleção brasileira. Para quem acredita que o time tem de ter a cara do seu comandante, este time é uma perfeição: quando pressionado, reage com irracionalidade ou se encolhe como se sua posição devesse ser única e inquestionável, porém, quando aplaudido, relaxa e infla seus mais recônditos sentimentos. Pois vejamos:
Brasil 0 x 0 Colômbia. A seleção brasileira começou muito mal as Eliminatórias Sul-Americanas. Não pelo resultado da estréia, que foi até muito bom, dadas as circunstâncias da partida, e sim pelo que a equipe apresentou, ou melhor, pelo que deixou de apresentar. Nesses últimos anos, sempre tivemos times inconsistentes, mas que geralmente compensavam suas falhas coletivas com a ação individual de alguns jogadores. Como Ronaldo ou Rivaldo, por exemplo. Hoje, no entanto, os craques que temos dependem de uma estrutura equilibrada e sólida para desfilar seus talentos. Sem isso, a qualidade de suas atuações cai substancialmente e se tornam mais facilmente marcáveis. Foi o que vimos nessa partida com Robinho, Kaká e Ronaldinho, que tiveram imensas dificuldades para criar e acabaram não criando quase nada. Sem eles, o que nos resta é muita força de vontade e pouco rendimento técnico, tornando a equipe um arremedo de futebol brasileiro.
Temos de aproveitar o tempo disponível e as partidas deste início das Eliminatórias para fortalecer esse lado coletivo do time e não ficar mexendo o tempo todo na sua estrutura, o que só pioraria o quadro. É o que seria mais sensato e com possibilidades de melhorias importantes. Os adversários têm nível técnico limitado, mas não podemos esperar que jogando como contra a Colômbia venhamos a ter facilidades nos próximos confrontos. É necessário avançar consistentemente para que não haja sustos desnecessários.
Brasil 5 x 0 Equador. Uma equipe que joga de forma cautelosa, lenta e incompetente durante 70 minutos e que se transforma totalmente a partir do momento em que uma partida se define, conseguindo mostrar em pouco mais de 20 minutos tudo o que dela se espera, é claramente um time sem confiança no seu próprio futebol e que só o reconhece quando as condições que se apresentam são as ideais. A equipe brasileira pode e deve jogar sempre como nos últimos minutos do jogo contra o Equador. Tem bons jogadores e muita arte do meio-campo para a frente, só lhe falta mais consistência coletiva, que poderá ser desenvolvida mantendo-se o time que atuou nas duas primeiras partidas. Porém, é necessário que os atletas queiram encontrar esse caminho. O primeiro passo para isso é se entregar totalmente a esse objetivo em cada encontro que tiverem.
Percebi certa acomodação na primeira partida e em boa parte neste jogo do Maracanã. Assim será difícil que o time evolua e amadureça, o que vai produzir dificuldades sempre que enfrentar equipes que jogam atrás esperando a hora de contra-atacar – uma realidade em quase todos os confrontos destas Eliminatórias. Não é possível que vejam como natural sofrer tanto contra adversários tão inferiores. Achando a forma justa de jogar esse time deixará de ser um camaleão.
Brasil 1 X 1 Peru. Há muito tempo eu não via um jogo tão fácil para a seleção brasileira como esse. E também há muito tempo não vejo uma equipe perder a chance de vencer um adversário tão frágil e desprotegido. O time peruano tem pouquíssimos jogadores de algum nível técnico, um conjunto que não tem afinidade entre as diversas linhas e que atuou de forma até suicida contra o time brasileiro: aberto, buscando criar alguma coisa empurrado por sua calorosa torcida. Um oponente que todo grande time quer se quiser vencer e bem. Mas não foi isso o que se viu, principalmente no segundo tempo. Desperdiçando dezenas de contra-ataques nos pés de Ronaldinho Gaúcho, a equipe não andava e se viu acuada em seu campo como um time medroso ou covarde, até sofrer o gol de empate.
Com os jogadores que temos é inadmissível que não saibamos prender a bola e proporcionar total domínio do adversário durante largo período de tempo. Nesses casos, o que falta é uma liderança em campo que sinta e diagnostique o jogo, e que proponha uma mudança de atitude da equipe para que esta se safe das dificuldades momentâneas. Sem isso, o que vemos é um time assustado por sua inferioridade temporária e até acomodado nessa situação. Toda equipe precisa de líderes e de comando para definir estratégias, especialmente nos momentos mais difíceis.
Brasil x Uruguai. De que jeito nos apresentamos?
