A “Copa” da mãe Joana
Em entrevista ao portal Terra, o ex-presidente do Banco Central, Carlos Langoni, responsável pela consultoria financeira do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, declara que o Brasil está pronto para receber a Copa, mas que não tem ainda nenhum orçamento definido para o evento.
Um verdadeiro absurdo.
Como se aprova algo que não se sabe quanto vai custar ?
É como se você mandasse construir um prédio sem saber se possui dinheiro suficiente para arcar com as despesas.
O governo esta sendo mais uma vez conivente com um assalto anunciado aos cofres públicos.
E o Barão de Munchausen agradece.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
Terra – O Brasil se compromete a entrar em um negócio sem saber quanto vai gastar lá na frente. Essa é a questão que todo mundo quer entender. Quem garante que essa conta não vai ficar por pagar?
Langoni – Não existe um orçamento ainda. O que há de efetivo é o orçamento do Comitê Organizador, em torno de US$ 400 milhões (R$ 720 milhões), e uma avaliação do gasto com os estádios, em torno de US$ 1,2 bilhão (R$ 2 bilhões), que virão, respectivamente, da Fifa, e da iniciativa privada. Do ponto de vista do comitê organizador, não vai haver erro. Porque o nosso orçamento é esse aí de US$ 400 milhões e não vai haver muita mudança. Esse é um dado, é uma parcela pequena. O restante, é realmente atrair, criar condições para que grupos privados façam os investimentos necessários. O que eu posso dizer é que o interesse demonstrado pelo setor privado é enorme. E nós nem começamos ainda. Porque é evidente que o setor privado só vai se manifestar quando tiver certeza que o Brasil vai ser selecionado. O jogo começa no ano que vem. Na verdade um pouco antes, porque a seleção das sedes pela Fifa vai depender do compromisso e da certeza de que esses Estados vão atender esse requisito básico, que é ter estádios modernos e infraestrutura adequada.
Terra – Mas não há nenhuma estimativa de quanto custará a competição?
Langoni – O processo é dinâmico, nós fizemos um trabalho agora. Nós aproveitamos esse período entre março e outubro para detalhamos o máximo possível todos os componentes de custo de uma Copa do Mundo. Um trabalho bastante complexo. Eu tinha uma equipe trabalhando comigo, ajudando a definir o orçamento da maneira mais realista possível. Mas é lógico, é um orçamento, para você ter uma idéia, para 2014. É um orçamento inclusive que é distribuído ao longo do tempo e os gastos aumentam em 2013 e 2014, quando de fato começam a acontecer os eventos.
Terra – Quem são os interessados nessas obras. Investidores brasileiros, estrangeiros?
Langoni – Hoje você tem já vários consórcios sendo organizados, de dentro e de fora. E nós, apesar de não termos iniciado esse trabalho, porque uma das funções do Comitê Organizador é incentivar e estimular e atrair investimentos privados para as cidades que vierem a ser selecionadas, já temos notícias de muita gente interessada.
Terra – O senhor vê o Brasil preparado para um desafio desse tamanho?
Langoni – Eu acho que as pessoas, às vezes, tem um complexo de inferioridade. Acham que o Brasil não tem condições de fazer uma Copa do Mundo. Não tem condições por quê? Nesse modelo que nós estamos colocando aqui, em que a contribuição principal do governo, isso aliás já foi assegurado pelo presidente Lula, pelo governo atual e pelos governos estaduais, é criar um marco regulatório que atenda as exigências da Fifa. Recursos públicos vão ser aqueles investimentos que teriam de ser realizados de qualquer maneira, o que aconteceu na Alemanha, por exemplo. O novo aeroporto de Munique foi construído para atender a Copa do Mundo. Então, anteciparam o cronograma.
Terra – O senhor já foi presidente do Banco Central. Estaria tão tranqüilo assim se ainda fizesse parte do governo?
Langoni – Fui presidente e “sem reservas” (risos). É um projeto complexo. O Meirelles está numa situação muito mais confortável. Aliás, fazendo um grande trabalho. Outra coisa importante, é que eu me beneficio da experiência que a Fifa tem. A Fifa já fez quantas Copas do Mundo? É um processo de aprendizado. Nós estamos aprendendo com a Fifa. Você precisa ter uma equipe séria, competente, que saiba trabalhar com planejamento financeiro. O orçamento é dinâmico, revisado de acordo com a sua execução. Teremos de prestar contas a cada três meses. O importante é que há um comprometimento total. O Brasil só sai ganhando com esse projeto. Depois fica uma herança para o próprio futebol brasileiro.
Terra – Na sua opinião, quais os pontos em que o Brasil precisa trabalhar mais para cumprir o que foi acordado no caderno de encargos com a Fifa?
Langoni – Eu acho que é na questão dos estádios, que hoje, não teriam condições de receber nenhum jogo do Mundial. Na infra-estrutura, o maior desafio do Brasil, em algumas regiões é o transporte. A questão energética, eu acho que vai ser superada. O problema principal do Brasil que vai ter de ser equacionado, e é prioridade hoje de qualquer governador, é a segurança. Então, eu acho isso uma grande contribuição que a Copa do Mundo pode nos dar. Então você vê. O Pan, nesse ponto de vista (da segurança) foi um verdadeiro sucesso. Eu acho que o Brasil, em matéria de grandes eventos, sabe muito bem administrar. É uma Copa organizada no País inteiro. Até lá, vamos ter de avançar na área de segurança pública que é um grande desafio para o dia-a-dia do cidadão brasileiro.
Terra – O que o modelo brasileiro terá de diferente dos apresentados até hoje por outros países que sediaram um Mundial?
Langoni – De uma certa forma, o modelo brasileiro de Copa do Mundo de 2014 é um modelo inovador, porque ele vai privilegiar o investimento privado. E aí há uma coincidência favorável, que é importante que o público entenda. Primeiro, toda a administração da Copa, que a gente chama de gestão do evento, é 100% financiada pela Fifa. Não há um centavo de recursos públicos, ou seja, o comitê organizador da Copa… Hoje eu trabalho no Comitê de candidatura. A partir da aprovação, ou seja, de terça-feira, você tem a transição do Comitê de Candidatura para o Comitê Organizador.

