Corrupção no Corinthians – Leiam, é bombastico ! – Parte 2
Conta em Nova York
Duprat ainda opina que “a única coisa que parece irregular é a compra de jogadores e que sabe pelo Dualib que o Corinthians tem uma conta em Nova York ainda do tempo da parceria com a Hicks&Muse”.
Ao ser perguntado se sabe quem é que está no inquérito, Duprat responde que é “o Protógenes, o mesmo da outra vez”. (Referência ao delegado da PF Protógenes Queiroz)
Na mesma conversa, Duprat comenta que Dualib despediu o filho do Grondona (Julio Grondona, presidente da Associação de Futebol da Argentina e vice-presidente da Fifa):
-(…) que é o cara responsável pela fiscalização de lavagem de dinheiro na Fifa, o que causou mal-estar quando a PF foi à Fifa e mandaram falar exatamente com o Grondona, que até foi questionado por ser o responsável por essa área e o filho estar envolvido com o Corinthians.
Duprat acha que Kia pôs, “estrategicamente”, o filho de Grondona no clube.
“Discurso mentiroso”
Paralelamente a tudo isso, outra história se desenrolou – ou não se desenrolou -, a de Nilmar, tão enrolada como as demais, razão pela qual o leitor dela será poupado.
Porque melhor é a nova conversa mantida entre Dualib e Duprat, no dia 16 de outubro.
O cartola pergunta:
-É para manter o discurso mentiroso sobre o Boris, que ele não tem nada a ver, que é tudo com o Badri?
Duprat diz:
– Tem de falar a verdade, que o Boris nada tem a ver com a MSI.
Diz, e dá risada.
E de repente o Flamengo quase entra na dança.
Operação Flamengo
Kia Joorabchian, no dia 31 de outubro, determina que Paulo Angioni fale com Verri para que este explique como será a entrada deles no clube carioca depois de ouvir que “o Flamengo quer abrir as portas para Kia”.
-Só preciso de um mês para terminar tudo com o Corinthians e começar a investir no Flamengo – assegura Kia.
Novela curta. Melhor, uma minissérie porque rapidamente se esgota.
No dia anterior, ao receber nova cobrança de envio de dinheiro, Duprat diz a Dualib:
-O problema é em Londres, porque eles não têm em nome de quem mandar.
Neta de Dualib
Na verdade, não dá para acreditar numa só palavra de Duprat.
Nem mesmo quando, aparentemente com sensatez, aconselha Dualib a não brigar com Curi, “pois não é hora”.
Só que Dualib está indignado ao telefone neste dia 23 de novembro:
-(…)porque ele não pode fazer o que está fazendo, chamando minha neta de ladra, porque tirei notas, de 14 anos para cá, para poder livrar a cara do Nesi da investigação e se não tivesse feito isso ele estaria enrolado juntamente com o Mello (Carlos Roberto Mello, ex-vice-presidente de finanças do Corinthians).
Novembro termina, dezembro começa, e tudo permanece na mesma.
Dinheiro incerto
No dia 3, Duprat diz a Curi que contratou o centroavante Borges, no Japão. O jogador, como se sabe, de fato veio do futebol japonês, mas para o São Paulo.
No dia 6, Curi diz a Duprat que todas as contratações estão sendo desmentidas na imprensa e Duprat afiança que mandará muito dinheiro a partir do dia 15: primeiro um dinheiro para cobrir o déficit; depois mais US$ 5 milhões e depois mais US$ 10 milhões. E começa a falar sobre a contratação de Cícero, meia do Figueirense.
Este foi parar no Fluminense.
Um pouco mais tarde, no mesmo dia, é Dualib quem cobra Duprat ao dizer que precisa de ao menos US$ 1 milhão. Duprat responde que será esse o valor e que o mandará “amanhã”.
Varig, Kia e o Galo
No dia 22, às 10h01, Duprat voa mais alto. A um interlocutor não identificado, diz que “eles vão comprar mais quatro clubes no Brasil para lavar dinheiro” e diz “que o russo agora é o dono da Varig”.
Berezovski, é verdade, quis montar sua lavanderia, mas não comprou a Varig.
Uma semana depois, Duprat fala a alguém não identificado que é contra o empréstimo do lateral Coelho para o Atlético Mineiro, “porque existe algum esquema entre o Kia, o Nesi e o Atlético”.
Coelho, como sabem até as montanhas das Alterosas, é hoje jogador do Galo.
Duprat onipresente
Mas Duprat não desiste, Duprat insiste, está em todas.
E em conversa com um dos vice-presidentes do Corinthians, Jorge Kalil, manifesta sua surpresa com o fato de a Unimed querer Carlos Alberto emprestado e pagando tudo, salário e direito de imagem:
– Como é que um plano de saúde tira dinheiro do caixa para pagar empréstimo de jogador?- pergunta, provavelmente pela sua experiência com a falida Unicor, que fez papel semelhante no Santos e quebrou.
No mesmo diálogo, Duprat diz a Kalil que Carla Dualib, a neta do presidente, prefere ele, Kalil, como laranja do avô a Edgard Soares, outro vice de Dualib.
“Aquela mulher gorda”
O clima esquenta.
Curi diz a Duprat que “está arranjando uns guardas para bater em Martinez” (diretor de futsal do clube) e pergunta se Berezovski vem mesmo ao Brasil. Duprat diz que sim, “mas se ele não vier já tenho outro judeu” e acrescenta que está tentando pegar Robinho emprestado.
Não é incrível que alguém pudesse acreditar?
Enquanto pululam quimeras, esquentam as negociações para Berezovski vir ao país.
Dualib garante num diálogo com Curi que Duprat já acertou tudo com Brasília.
Nesi garante que “aquela mulher gorda estava atrapalhando” e Dualib a identifica como Clara Arnt, “da ala radical do PT e contra o Boris”.
Clara, secretária pessoal de Lula, confirma à reportagem a tentativa de se fazer Berezoviski chegar ao presidente:
-Fui contra desde sempre que o presidente o recebesse.
No gabinete de Lula
Curi acrescenta que o presidente Lula teria gostado da visita deles – os dirigentes corintianos -, mas que é bom não comentar nada sobre o fato de terem ido falar sobre o Boris, para que ninguém mais trabalhe contra.
Sim, Dualib, Curi e Duprat estiveram com o presidente da República e pediram que ele se esforçasse para eliminar as barreiras que impediam a entrada do bilionário russo no Brasil. (Encontro esse noticiado pelo Blog do Boleiro neste Terra Magazine).
Numa cena constrangedora, Curi até pediu que Lula ligasse na frente deles para Berezovski. Não foi atendido, segundo relata Gilberto Carvalho, chefe de gabinete da Presidência, ouvido sobre o episódio pela reportagem na última quarta-feira, 5 de setembro:
-A pedido da direção do Corinthians, nos limitamos a ver se era possível conseguir a extensão do asilo político dele na Inglaterra para o Brasil e não sabíamos sobre o russo o que sabemos hoje. Agora temos tratado de extradição com a Rússia e é impensável tê-lo aqui. Além do mais, vi Duprat apenas na audiência com o presidente e jamais falei com ele sobre qualquer assunto depois disso-, garante Carvalho embora confirme que houve gestão, na mesma direção, do jornalista Breno Altman, ligado ao ex-ministro José Dirceu.
Em nome de Zé?
Altman chegou a viajar para a Europa para se encontrar com Berezovski e, quando da primeira vinda do russo ao Brasil, organizou reuniões para ele.
A justificativa é simples: o russo queria investir no Brasil em estádios, biodiesel, etanol etc, e estava até disposto a passar parte do ano por aqui.
Dono de uma fortuna avaliada na casa dos US$ 4 bilhões, Berezovski mobilizou diversos segmentos, aí incluída a Assembléia Legislativa de São Paulo, por intermédio do deputado estadual petista Vicente Cândido, um dos articuladores da frustrada vinda do bilionário; segundo o deputado mesmo dizia, sempre em nome de José Dirceu.
Mas a Operação Perestroika -alusão ao processo conduzido por Mikhail Gorbatchev que culminou com a abertura política na Rússia- traz de volta o mesmo nome de um velho personagem da corrupção no futebol brasileiro.
O retorno de Moreira?
Em 1982 a revista Placar desvendou um esquema de manipulação de resultados dos jogos da Loteria Esportiva que se tornou conhecido como a “Máfia da Loteria”. Sobressaía-se, então, um jornalista cearense de nome Flávio Moreira. Ele trabalhava na agência Sport Press e era quem escolhia os 13 jogos da loteca.
Descobriu-se que Moreira fazia a escolha de acordo com os grupos que manipulavam os resultados pelo país afora.
Pois é um tal Flávio Moreira quem procura Duprat -segundo o relatório da PF- para oferecer seus serviços para “classificar” o Corinthians no Campeonato Paulista, nega-se a falar mais pelo telefone e manda tirar suas referências com Paulo Pelaipe, diretor de futebol do Grêmio.
Duprat, surpreendentemente, o dispensa e a conversa não evolui ou, pelo menos, não tem novos registros nas escutas da PF.
Uma fonte ouvida pela reportagem garante que Flávio Moreira é Flávio
Futebol, corrupção… e amor
Esta novela, como quase todas, está recheada de histórias de amor. Uma com final feliz em Londres e outra permeada por suspeita de corrupção no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Kia Joorabchian passou pelo Brasil e levou para Londres a bela morena Tatiana, com quem se casou na sexta 7, o dia da Pátria (a nossa…), em luxuosa cerimônia.
O outro caso de amor tem como palco a Cidade Maravilhosa.
Revelado por meio de uma conversa entre o presidente do Flamengo, e dono de cartório no Rio, Márcio Braga, com o ex-juiz de Direito e ex-presidente do Fluminense, atualmente ouvidor da CBF, Francisco Horta.
Ambos tratam de uma ação que corre sobre as eleições na Federação Estadual do Rio de Janeiro.
Vingança de ex-mulher
Braga critica uma liminar concedida por um desembargador e alega que este faz tudo que um outro poderoso desembargador pede.
Horta comenta que o magistrado que concedeu a liminar estaria “emocionalmente quebrado”, pois se separou da mulher e começou a namorar uma juíza, filha de um casal de desembargadores.
Horta revela que foi procurado pela ex-mulher do desembargador que concedeu a liminar. Ela, segundo Horta, queria lhe entregar um dossiê sobre o ex-marido, mas ele não a teria recebido. E comenta:
-Pior que uma traição conjugal é a corrupção, é gente vender sentença.
Braga concorda, acrescenta que atua junto à Justiça há quase 50 anos e que sempre houve corrupção, mas que nos últimos 10 anos eles perderam a vergonha.
Operação abortada
No futebol brasileiro, não é bem assim.
Ao que se sabe, e quanto mais se sabe, mais se demonstra que vergonha nunca houve.
E mais não se sabe desta novela porque, estranhamente, quando a PF mais avançava em suas investigações e se preparava para os capítulos finais da Operação Perestroika, eis que o Ministério Público Federal apresentou denúncia à Justiça, o que abortou a seqüência dos trabalhos.
