Miscigenação, por Sócrates
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Miscigenação
Sócrates
O esporte organizado, em geral, é produto de uma elite. O futebol do Brasil ocupou, no início, um espaço tão aristocrático quanto aquele que nos colocou em contato com a primeira bola de couro. Mister Miller vicejava pelas altas rodas da sociedade paulistana e no seio do clube que o abrigou, e que, até hoje, mantém a sua bela sede em uma localização para lá de privilegiada na capital paulista, como se fosse um oásis na confusão e na correria. Os termos utilizados para expressar as particularidades do jogo eram sempre em inglês como penalty, offside, hands, center-half etc.
Os atletas, assim como os espectadores, vestidos a rigor, como ainda hoje ocorre nos principais páreos dos mais tradicionais hipódromos por este mundo afora, eram todos da mesma classe social e o esporte era visto como uma expressão do poder econômico dos envolvidos. Essa realidade produziu sérias reações de intelectuais como Lima Barreto, que achava o esporte elitista e artificial. O que pouca gente poderia imaginar à época era que, por sermos um país de economia limitada e com boa parte da população passando por dificuldades, pudéssemos adotar esse esporte como forma de expressão cultural. E o foi exatamente por essa razão. O futebol é um esporte barato, que exige pequeno investimento, ou apenas um pouco de criatividade, e espaço para a sua prática é algo que jamais nos faltou.
Esse esporte, por culpa dessas facilidades e por possuir como característica principal a livre expressão, com o passar dos anos se incorporou de tal forma aos costumes nacionais que poderíamos dizer que, apesar de não ter nascido por aqui, ele é algo essencialmente brasileiro, dada a facilidade como nos adaptamos às suas peculiaridades. Fundamentalmente, devido às nossas características decorrentes da extrema miscigenação de raças. E é aqui que encontramos o principal motivo pelo qual acabamos por nos destacar mundialmente no exercício de nossas habilidades para realizar os movimentos exigidos no jogo de futebol. A mestiçagem, a meu ver, foi o fator desencadeante da popularização do futebol e do grau de excelência que adquirimos.
Ainda na primeira metade do século passado já se detectava que a maioria dos atletas de futebol era mestiça e que isso provocara por aqui uma transformação na forma de expressão artística desse jogo, abrasileirando a rígida cultura européia. É possível perceber que o nosso futebol é baseado na emoção, na criatividade, na liberdade, no individualismo, que gerou os maiores craques da história do esporte, e no instinto. Em contraste com a norma dos europeus, mais formais, racionais, e pouco afeitos a fugir de determinado planejamento. O futebol europeu é uma expressão do método e do coletivo, em que a ação pessoal é mecanizada e subordinada ao todo. O brasileiro expressa em todos os momentos a sua individualidade, mobilidade e alegria.
A globalização dos meios de comunicação produziu uma verdadeira invasão de jogadores negros originados das antigas colônias para o continente europeu. As sociedades européias estão tendo de aprender a conviver com essas diferenças culturais. É impossível prever aonde chegaremos e até que ponto essa proximidade produzirá mudanças na forma de expressão futebolística dos europeus. Mas já é possível perceber que, mesmo em esportes muito mais fechados socialmente há, uma tendência a que os afro-descendentes ocupem postos de relevância em ambientes que sempre lhes foram distantes. É o que temos acompanhado no golfe nos últimos dez anos. O surgimento de um talento como Tiger Woods, que talvez vá bater todos os recordes históricos, fez com que a estética do jogo sofresse uma grande transformação e se popularizasse. Acredito que isso tenha ocorrido não só pela excelência do seu jogo, mas também pelo fato de que raramente vemos um negro em posição de destaque nesse esporte tão tradicional e muitas vezes elitista.
Outro que chega agora para ocupar lugar de destaque, desta vez no automobilismo, é o também afro-descendente Hamilton, que surpreendeu a todos ao assumir a ponta do campeonato logo em sua temporada de estréia, desbancando o bicampeão Fernando Alonso, seu colega de equipe. Há um século os líderes políticos que promoveram o nazismo e o fascismo pregavam que os brancos são uma raça superior. Todos sabemos que isso jamais foi verdade e que no esporte, qualquer que seja, muitas vezes, mesmo em inferioridade numérica, os negros se sobressaem.

