O canto do cisne.
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O canto do cisne
A arte de pequenos times, como o Figueirense, vice-campeão da Copa do Brasil, demonstra que há estruturas se modernizando no futebol, na opção por um planejamento correto, gestão mais profissional e por estratégias adequadas
Sócrates
Que o futebol brasileiro está mal, todos nós sabemos. Que ele havia voltado à idade da pedra, juro que eu desconhecia. As razões para as demissões dos últimos técnicos em algumas equipes, declaradas por seus presidentes, são as mais absurdas que jamais ouvi falar. Significa dizer que pessoas educadas, com bom senso e cordialidade não podem trabalhar em determinados clubes. É fato absolutamente corriqueiro nesse meio que alguns folclóricos dirigentes são agentes da irresponsabilidade e adoram provocar confusão por onde passam. Imaginam-se acima de tudo e de todos. Mas daí a exigir que o mundo seja à sua imagem e semelhança já é demais.
Há alguns anos, um fato marcante e raríssimo no futebol mundial foi protagonizado pelo italiano DiCanio, que, ao perceber o goleiro adversário caído por contusão, deixou de tentar a conclusão que poderia dar a vitória à sua equipe, interceptou a bola com as mãos e chamou a atenção do árbitro para que providenciasse atendimento ao lesionado. Todos, sem exceção, aplaudiram o seu gesto. Ele é fruto de um estado de consciência crítica que extrapola o universo da competição e serve para valorizar o espírito esportivo. Muito diferente do que apregoam nossos péssimos exemplos. Além disso, a intromissão no trabalho do treinador torna impossível qualquer possibilidade de levar a bom termo a relação com os atletas.
Lembro-me de um episódio que vivenciei quando dirigia o time do Botafogo de Ribeirão Preto, muito parecido com o ocorrido nos vestiários de algumas equipes que têm dirigentes com mania de tentar interferir no comando do grupo de jogadores. Eu havia pedido ao time que marcasse sob pressão o campo todo durante o primeiro tempo. O objetivo era minar a confiança do adversário, que chegava àquele jogo como líder invicto do campeonato que disputávamos. Foi o que os meus atletas fizeram, apesar do calor e do imenso desgaste que esse tipo de comportamento provoca no estado físico dos jogadores.
Satisfeito, fui para os vestiários disposto a parabenizar todos pelo absoluto respeito à estratégia que havíamos traçado, mas, antes que me dirigisse aos jogadores para aplaudir a performance coletiva, tive a desagradável surpresa de ouvir, de um dos diretores, uma sonora repreensão provocada por sua insatisfação em relação ao resultado parcial do jogo. Minha única saída, para não perder o comando da equipe, foi desqualificar tudo o que ele havia dito, pois os jogadores tinham feito exatamente o que eu imaginei para aquele confronto. Isso causou um desconforto em minha relação pessoal com o dirigente.
Eu sabia que, a partir daquela etapa, poderia, utilizando outros meios e explorando a confiança que existia entre os atletas e eu, chegar com mais facilidade à vitória. Foi o que aconteceu. Vencemos de forma categórica aquela partida, porém, se eu não tivesse reagido àquelas agressões gratuitas do nosso diretor, jamais teríamos tido sucesso. Esse é um pequeno exemplo de como as relações humanas podem ser destruídas por quem não as conhece. Às vezes, um simples gesto pode determinar o fim de um processo de anos.
Mas nem tudo é ruim por aqui. A arte de alguns pequenos times, como o Figueirense, que chegou ao vice-campeonato na Copa do Brasil, demonstra que algumas estruturas estão se modernizando ao optar por um planejamento correto, gestão mais profissional e estratégias adequadas para poder crescer, atingir melhores índices competitivos e manter-se na elite do nosso futebol. Alegres, criativos, sensitivos e positivos são as palavras de ordem no Figueirense. É o nosso canto do cisne nesses dias negros. Que a audácia de suas posturas contamine todo o nosso esporte, pois são do jeito que todos os brasileiros adoram.
Como o faz o também catarinense Gustavo Kuerten, o grande tenista da nossa história recente, que empreende uma luta incansável para se recuperar de duas cirurgias no quadril e voltar a jogar no seu melhor nível técnico. Guga, aliás, que foi merecidamente homenageado pelos organizadores do principal torneio francês, ao ser convidado para entregar o troféu ao campeão de Roland Garros deste ano. Guga já venceu o torneio três vezes e espera voltar a disputá-lo no próximo ano. Não será fácil, mas, mesmo que não consiga, já terá dado uma exemplar demonstração de persistência e amor ao esporte.
