Ainda não é hora de acabarmos com as seleções, por Felipe Santos

Ainda não é hora de acabarmos com as seleções


 


Felipe Santos


 


         Após o empate entre Brasil e Inglaterra, na última sexta-feira, vários comentários foram feitos criticando as seleções. Diz-se que o jogo foi chato, como chatos são os amistosos envolvendo seleções nacionais; diz-se que as seleções não fariam falta se fossem extintas; diz-se que elas só trazem prejuízos para os clubes; diz-se que os clubes europeus estão certos em exigir indenizações por jogadores convocados; enfim, há muitas discussões sobre a viabilidade das seleções nos dias atuais.


 


         É certo que a relação de poder entre clubes e seleções mudou muito nos últimos tempos. Geradores de cada vez mais renda, os primeiros estão tentando fazer valer o poder que têm em relação às federações nacionais, questionando a necessidade de expôr os atletas, seu patrimônio, a contusões desnecessárias. Não é por outra razão que o G-14 entrou com tudo no apoio ao Charleroi, clube belga que exige nos tribunais indenização da FIFA, graças a uma fratura na perna que vitimou um de seus atletas, o meia marroquino Abdelmajid Oulmers, enquanto este servia à seleção de seu país.


 


         Aí é que está o ponto da discussão. Os clubes questionam o uso que as seleções fazem de seus atletas, não a existência delas. E é este uso, feito atualmente da Seleção Brasileira, que deveria ser combatido pelos torcedores.


 


         Evidentemente, é indiscutível que o torcedor tem mais proximidade afetiva com seu clube do que com a seleção de seu país. Afinal, o clube está ali, jogando no meio e no fim de semana, nos noticiários de esporte, no jornal, na revista, na Internet. Não é por outra razão que ele prefere um título do time do coração a um título mundial do país.


 


         Acontece que as seleções, ao longo dos tempos, foram adquirindo um status que transcende os assuntos clubísticos, de modo que viraram atração mundial. De outro modo, a Copa do Mundo já teria acabado há muito tempo – ou então, não chamaria a atenção como ainda chama – e Ricardo Teixeira não encheria suas burras de dinheiro, pois não choveriam pedidos de amistosos contra a Seleção Brasileira. Todos, lembremos o motivo, causados pelo status que ela foi ganhando ao longo de sua história.


 


         Sendo assim, é preciso combater o uso predatório que se faz das seleções (principalmente da Seleção Brasileira) hoje em dia. Elas não são times, que jogam semana sim, outra também. Não podem ser encaradas como tal. Devem jogar apenas em ocasiões especiais, não em qualquer amistoso, por quaisquer quantias de caraminguás.


 


Este uso predatório começou a ser visto lá no começo da década de 1970, quando o patrono da má cartolagem, João Havelange, tratou de mandar a Seleção Brasileira para jogar em países africanos, como Tunísia e Argélia, para tentar conseguir o apoio destes países à sua eleição para a presidência da FIFA. Além, é claro, da tal Mini-Copa (ou Torneio do Sesquicentenário), pretensa tentativa de fazer uma réplica da Copa do Mundo em terras brasileiras e conseguir o apoio dos países que a jogassem. Vale dizer que os europeus sacaram qual era a de Havelange e só seleções do segundo escalão daquele continente jogaram o certame.


 


Mas aí, a pedra já havia sido cantada pelo visionário do atraso, Havelange. E começaram as excursões lá para onde o vento faz a curva. Excursões que só faziam cansar os jogadores e banalizar a presença das seleções no imaginário coletivo, tirando o caráter especial da Copa do Mundo e dos antigos amistosos, quando o dia era diferente porque “haveria jogo da Seleção”, quando qualquer amistoso, qualquer jogo de Eliminatórias contra a Venezuela valia uma aglomeração familiar em frente à televisão.


 


Até houve quem combatesse essa prática asquerosa. Giulite Coutinho, por exemplo, que só marcava amistosos pedidos por Telê Santana. Vale lembrar que a Seleção Brasileira não jogou mais nenhuma partida no ano de 1982 após a derrota para a Itália, na Copa da Espanha. Nem em 1986, pós-derrota para a França.


 

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