Pitágoras da Bola

Um maravilhoso texto em homenagem aos 60 anos de Johan Cruyff.


Por Felipe dos Santos Souza


 


Pitágoras da Bola


 


Ele só jogou uma Copa do Mundo. Tudo bem. Há quem tenha jogado três copas e não deixou a marca que ele deixou em um só Mundial.


Como esquecer sua sabedoria dentro de campo ?


Como esquecer aquela corrida por entre os alemães, só sendo parado com penalti, na final da Copa de 1974 ?


Como esquecer ?


Neste 25 de abril, a Holanda, ou melhor, o mundo para a fim de reverenciar o gênio tático do futebol: Johan Cruyff, o novo sessentão.


E pensar que sua mãe, faxineira do Ajax, colocou o filho na famosa escolinha do clube, em 1959, apenas para resolver uma má formação dos pés, que causava problemas ortopédicos, impedindo-o de correr…


Cruyff correu. Correu precocemente, marcando o primeiro gol logo em seu primeiro jogo como profissional do Ajax (e fazendo o mesmo em sua primeira partida pela seleção da Holanda).


Correu para ajudar o Ajax a se tornar uma potência europeia, ganhando três Copas dos Campeões consecutivas (1970/71, 1971/72 e 1972/73). Correu para ser, dentro de campo, o maior artífice do Futebol Total, no qual os jogadores mudavam constantemente de posição. Poderia ter sido desastroso. Não foi porque os jogadores holandeses eram muito inteligentes. Principalmente Cruyff, o gênio dentre vários gênios. Chamam-no “Pitágoras de Chuteiras”. E ele não era indigno do apelido. Tinha uma ciência absurda dos espaços que o campo contém. Sabia mostrar aos companheiros onde se posicionar e sabia fazer lançamentos magistrais, como um professor de matemática que sempre indica aos alunos a melhor maneira de resolver um logaritmo.


Depois, Cruyff correu para a Espanha, onde, auxiliado pelo fiel escudeiro, Johan Neeskens (e treinado por Rinus Michels), ajudou, no mesmo 1974, a pulverizar um jejum: desde 1960 o Barcelona não ganhava um Campeonato Espanhol. Continuou no clube catalão, agora apelidado “O Salvador”, sendo magistral tanto dentro quanto fora de campo, quando se recusou a jogar no arqui-rival Real Madrid, devido ao fato do time merengue ser o time do coração do ditador Franco.


Mas cansou-se da violência(chegou a ter uma perna quebrada na Espanha). E correu, em 1979, para ser uma das estrelas no então incipiente futebol norte-americano.


Porém, não foi o Cosmos o seu habitat estadunidense, e sim o Los Angeles Aztecs. Não venceu a Liga Norte-Americana. Tudo bem. Foi suficientemente bom para ser eleito o Melhor Jogador do Campeonato, já em 1979.


Depois ainda correu para jogar no Washington Diplomats, um ano depois.


Ainda voltou para a Espanha, jogando um pouco no pequeno Levante.


E, como bom filho, à casa tornou para matar as saudades dos torcedores do Ajax, ajudando na conquista da Liga Holandesa 1982/83 – e, no mesmo campeonato, convertendo aquele pênalti que o leitor já viu neste blog (ou no blog de Juca Kfouri) contra o Helmond Sport.


Mas o Ajax se recusou a renovar seu contrato, no fim daquela temporada.


Cruyff se irritou. Temperamental como sempre (em seu segundo jogo pela Holanda, foi o primeiro jogador batavo a ser expulso na história da seleção), escolheu a pior vingança possível: mudou-se para o principal rival, o Feyenoord. Como vingança pouca é bobagem, levantou a taça da Liga Holandesa 1983/84. E pôs um ponto final em sua carreira de jogador.


E continuou genial como técnico. Tanto no Ajax, onde foi bi holandês (1986/87), quanto, e principalmnete, no Barcelona, onde foi tetracampeão espanhol (1991/92/93/94) e deu o primeiro título europeu ao clube (1992, como bem se recordam os são-paulinos).


Mais do que continuar genial, continuar genial, continuou temperamental. Enquanto jogador, protagonizou o clássico episódio em que, na Copa de 1974, se recusou a vestir a camiseta laranja com as três listras da patrocinadora Adidas. Tanto por ter como patrocinadora pessoal a Puma, rival de antologia da Adidas, quanto por não receber dinheiro algum ao vestir a camisa com três listras. Resultado: seu uniforme tinha duas listras.


Ou então, quando se recusou a ir a Copa de 1978, por não compactuar com a sanguinolenta ditadura de Videla na Argentina (dizem as más linguas que a proibição partiu, na verdade da esposa – até hoje, e lá se vão 29 anos e três filhos ! – Danny, que soube de uma festinha na concentração de 1974…).


“Nunca aceitei uma ordem”, já disse ele.


Só não foi temperamental quando, em 1991, o vício de fumar 20 cigarros por dia lhe trouxe um infarto. Desde então, pontes desafena no corpo, criou o prosaico hábito de chupar pirulitos no banco. Semelhante a outro mestre, Telê Santana, que começou a mascar chicletes para evitar os palitos de dente que arrebentavam suas obturações.


Em 1996, deixou o Barça, e preferiu se recolher à terra natal, onde vive, como uma sombra, como o Grande Analista que tudo vê e tudo sabe no futebol holandês.


Erra em suas análises ? Sem dúvida. Como quando, num surto de mau perdedor, tentou desqualificar a conquista do Inter no último Mundial de Clubes.


Mas isso não tira o brilho que sua figura tem. Nem a imensa compreensão sobre o futebol que possui e que permite criticar o estilo de jogo das seleções atuais. Principalmente a do Brasil. Má vontade, rancor, dizem alguns. Mas será que um cidadão que disse “Para mim e para sempre, os campeões de 1982 serão sempre os brasileiros” é tão presunçoso assim ?


Na verdade, é. É presunçoso porque pode sê-lo. E provou isso nos 20 anos de sua magnífica carreira.


Vida longa a Johan Cruyff !


(Aliás, bendito 2007, que nos permitiu celebrar os 50 anos de Reinaldo, permitiu celebrar os 60 anos de Tostão, gênio da raça, e permite agora a festa por Cruyff…)                                                      

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