O verdadeiro Henry Sobel
Jornal da ABI
Novembro/Dezembro de 2005
“Estamos aqui reunidos para homenagear o jornalista
Vladimir Herzog. Trago o abraço fraterno e solidário
da Associação Scholem Aleichem–Asa, centro
do judaísmo progressista do Rio de Janeiro, aos
amigos de Herzog.
Existe entre os judeus e suas entidades muita coisa
em comum. Em agosto deste ano, a Asa comemorou
41 anos e, na qualidade de sucessora da Biblioteca
Scholem Aleichem, representa uma trajetória
de cerca de 81 anos.
A Biblioteca e a Asa em várias épocas sofreram
intervenção e vigilância por parte dos órgãos de segurança.
A Asa é um Centro de Cultura. Seus fundadores
são emigrantes, vindos principalmente da Europa
Oriental. Judeus. Chegaram ao Brasil para recomeçar
suas vidas. Além de sua bagagem, traziam suas
tradições e costumes, e um sólido conjunto de valores
éticos e morais. A vida familiar tinha sua seqüência
natural nas atividades sociais onde preservavam
sua cultura, traduzidas em grupos corais, grupos
teatrais, bibliotecas, círculos de leitura e publicações
impressas. Essas atividades são desenvolvidas até os
dias de hoje.
A Asa é um Centro de Debates. Seus fundadores
participavam ativamente da mobilização em torno
de idéias políticas da época que trouxeram de seus
países de origem. Sentiam a necessidade e o imperativo
de transformações para a construção de um
mundo melhor.
Deles herdamos seus sonhos a que não renunciamos.
Acreditamos que um mundo melhor é possível.
Um mundo com menos violência e sem exclusões.
Um mundo de Justiça Social, mais igualitário
e de respeito ao próximo e aos seus direitos. Um
mundo baseado em princípios de paz, democracia e
liberdade.
Acreditamos no Homem. Acreditamos no seu sentimento
de fraternidade, solidariedade e tolerância.
Acreditamos no seu senso de justiça.
Assumimos um compromisso. Somos daqueles
que não aceitam o fim da História. Continuaremos
a buscar novos caminhos e novos horizontes para a
construção de um mundo melhor. Existem muitas
alternativas para atingir esse objetivo e a Asa sempre
será um espaço livre para a sua análise, avaliação
e reflexão.
Minha família também sofreu com a ditadura.
Permitam-me lembrar meu falecido pai Hersch
Schechter. Filho de emigrantes. Jovem emigrante.
Judeu. Também acreditava que um mundo melhor
era possível. Militante das causas sociais desde cedo.
A saudação do judaísmo
ao grande morto, na voz
de Horácio Schechter,
Presidente da Asa.
“AMIGO VLADIMIR,
AQUI ESTAMOS”
Jornalista. Em abril de 47, fundou o jornal Nossa
Voz (Undzer Schtime), voltado para o setor progressista
da coletividade judaica. Era seu dirigente
e também redator. Na véspera da edição do seu 17°
aniversário, a repressão fecha o jornal e empastela
a gráfica Isbra onde era impresso. Busca refúgio em
Montevidéu – Uruguai, terra sempre generosa.
Quando houve condições, volta ao Brasil e trabalha
na revista Veja até se aposentar por estar com
uma doença grave.
Vladimir Herzog. Filho de emigrantes. Jovem
emigrante. Judeu. Também acreditava que um mundo
melhor era possível. Militante das causas sociais.
Jornalista. Deixa a revista Visão onde era editor de
cultura, e passa a dirigir o Departamento de Jornalismo
da TV Cultura. Acreditava na verdade e na
força da informação livre. Combatia a censura, que
considerava uma forma de violência.
O General Ednardo D´Ávila, Comandante do II
Exército, quer atingir as vozes de oposição. Os jornalistas
são o alvo principal. Passam a ser perseguidos,
sofrem prisões arbitrárias e tortura.
25 de outubro de 75. Herzog vai ao Doi-Codi
paulista. Cerca das 15 horas. Jornalistas presos ouvem
os gritos de Herzog. A princípio, fortes; a seguir,
sufocados; e finalmente, o silêncio. Calaram a
voz de Vladimir Herzog.
Nossa homenagem a Vladimir Herzog. Homem
do seu tempo. A dignidade foi o traço de sua vida e
de sua morte. Honrou sua vida, sensível aos problemas
sociais. Honrou seu trabalho, sempre à procura
da verdade. Honrou sua morte, rasgando a falsa confissão
que queriam obrigá-lo a assinar. Torna-se o
mártir da abertura segundo Zuenir Ventura.
