Entrevista com Joaquim Cruz

Joaquim Cruz é um ex-meio-fundista brasileiro, campeão olímpico dos 800 metros nas Olimpíadas de Los Angeles de 1984, medalha de prata na mesma prova nas Olimpíadas de Seul de 1988 e duas vezes campeão pan-americano, em Indianápolis, 1987 e Mar del Plata, 1995.
Joaquim, quando percebeu sua aptidão pelo atletismo ? Como foi seu início de carreira ?
Iniciei a minha carreira no atletismo jogando basquete no SESI de Taguatinga. Um colega de equipe, Carlos Wanderlei sempre me convidava para fazer parte do time de basquete que era comandado pelo Prof. Luiz Alberto.
Recusei o convite várias vezes, mas um dia, ao chegar na escola, vi o Carlos e outros alunos conversando com o Prof. Luiz. Aproximei-me do grupo e permaneci calado, ouvindo a conversa. O Prof. Luiz Alberto virou para mim e perguntou o que eu fazia. O Carlos (Wandeco) tomou a palavra e disse que eu queria praticar basquete. Antes que eu pudesse desmenti-lo, o Luiz pediu para que eu aparecesse no treinamento, na segunda-feira. Mesmo não concordando com o convite decidi aparecer no treinamento, que parecia mais treinamento de atletismo. Fizemos um Teste de Cooper ( 12 minutos de corrida ) e fiquei em segundo lugar.
Gostei do basquete logo no início, mas não era muito fã das corridas e condicionamentos físicos, mesmo sendo um dos mais destacados.
Dois anos mais e o professor de atletismo da escola estava procurando por um estudante corredor para representar a escola nos Jogos Estudantis do DF. O Carlos novamente tomou a iniciativa e indicou o meu nome afirmando que eu corria bem. Quando o “Wandeco” me disse que ele havia indicado o meu nome, imaginei que aquilo fosse mais ums de suas brincadeiras de mal gosto e que provavelmente não fosse dar em nada. Passei a acreditar mais quando ele deu a notícia ao Prof. Luiz Alberto, o nosso professor de basquete.
Não só acreditei como senti na pele. Tive que fazer um teste de 1500 metros. Após o teste, Luiz disse que ia elaborar um treinamento específico de atletismo para eu fazer antes do treino de basquete. Não gostei nada da idéia, então decidi desaparecer dos treinos de basquete por alguns dias e esperar que todos esquecessem do atletismo. Após uma semana desaparecido, resolvi mostrar a cara. Entrei na biblioteca do SESI e dei de cara com o Luiz Alberto. “Se você fosse filho meu, moleque, você entraria aqui apanhando”, disse ele. Levei uma bronca construtiva de 40 minutos.
Quais foram as suas maiores dificuldades ?
Eu me julgo uma pessoa de sorte porque tive o apoio do Luiz Alberto e a estrutura básica do SESI de Taguatinga no início de carreira. O Luiz Alberto era quem conseguia, através dos seus amigos, o par de tênis, uma cesta básica com alimento reforçado e os exames médicos específicos. Quando eu tinha entre 15 e 16 anos tive um problema de úlcera. Tive que fazer endoscopias e ser encaminhado para médicos especialistas. O Luiz Alberto foi quem arranjou tudo.
Como recebeu o convite para treinar no exterior ?
Quando tinha 14 anos participei de uma clinica de basquete em Brasília. A clinica foi liderada por um americano, treinador da Universidade de George Washington. Fui selecionado para auxilia-lo na execussão das jogadas. No final da clinica o treinador me presenteou com um par de tenis “All Star”. Como se o tênis não fosse suficiente, me prometeu uma bolsa para estudar e jogar basquete na Universidade onde ele era o treinador.
Jogar basquete nos USA era um sonho de todo jovem basqueteiro na época, mas estudar em uma universidade era um sonho que ninguem havia introduzido na minha vida, até então. Passei a alimentar a idéia de estudar e jogar basquete nos USA. Poucos meses depois mudei de esporte, mas o sonho continuou o mesmo.
Em 1981, durante o Troféu Brasil de Atletismo, bati o recorde Mundial Juvenil, Brasileiro e Sulamericano adulto, e através do Agberto Guimarães e da Coca-Cola, conseguimos um contato com o treinador da Universidade, em Provo.
Qual o principal benefício que isso trouxe a sua carreira ?
Quando cheguei nos USA me vi mais perto dos meus objetivos como atleta e pessoa. A idéia de viver em um outro país me estimulou a criar novas metas. As expectativas aumentaram em todos os sentidos e isto me forçou a encarar o trabalho fora da minha zona de conforto. Aprendi outro idioma, entrei na escola e amadureci como pessoa.
A convivência com outros atletas estrangeiros me deu a oportunidade de desenvolver um senso de igualdade em relação a preparação para as competições. Com o tempo, trabalho e experiencias passei a me sentir superior aos outros atletas.
Qual o treinador que mais contribuiu para a sua evolução como atleta ?
Foram várias as pessoas que ajudaram diretamente e indiretamente no meu trabalho, mas o Luiz Alberto, o meu treinador, foi a pessoa que mais influenciou na minha carreira esportiva.
Quais as suas principais conquistas como atleta ?
Troféu Brasil de 1981 foi uma competição especial porque consegui quebrar o recorde mundial juvenil, brasileiro e sulamericano com a idade de 18 anos. Após aquela corrida várias janelas de oportunidades se abriram para mim. O Campeonato Mundial da Finlândia em 1983, onde conquistei a Medalha de Bronze. Campeonato Nacional Americano, onde competi por 4 dias seguidos e consegui vencer tanto os 800 metros como os 1500 metros e ajudei a equipe da Escola Oregon a vencer o título nacional colegial americano. As Olimpiadas de Los Angeles certamente foi a que mais me marcou, e o meu 1’41″77 nos 800 metros na Alemanha. O Panamericano de 1987 em Indianápolis e o de 1995 em Mar del Plata. Finalmente a Olimpíada de 1996, a qual tive a oportunidade de carregar a bandeira brasileira durante a abertura dos Jogos.
Qual foi o adversário mais difícil de se batido ?
Peter Elliot, da Grã Bretanha. Ele era um corredor imprevisível.
Qual a corrida que não esquece ?
Troféu Brasil de 1981, no Rio de Janeiro, foi uma competição especial, porque quebrei o recorde mundial juvenil. O Campeonato Mundial da Finlandia em 1983 foi importante também porque fiz a corrida errada no momento critico da minha carreira esportiva, os Jogos Olímpicos de Los Angeles e finalmente a corrida onde eu fiquei a 4 centésimos do recorde mundial.
Você emocionou o Brasil ao ganhar a Medalha de Ouro nas Olimpíadas de Los Angeles de 1984. Quando acreditou que poderia ganhar ?
Oito meses antes dos Jogos Olimpicos de Los Angeles tive um pressentimento que poderia vencer a final dos 800 metros. Naquele mesmo dia decidi que iria trabalhar para transformar aquele sentimento em realidade.
