Entrevista com Clodoaldo Silva, o “Tubarão Paraolímpico”

Clodoaldo Silva é reconhecido como ídolo no Brasil e no mundo. Prova disso foi a indicação para o Oscar Mundial do Esporte, em 2005, no entanto, o principal título de sua carreira não veio dessa cerimônia, mas do evento do Comitê Paraolímpico Internacional, que honrou o atleta com o troféu de melhor paraolímpico do mundo.
No final deste mesmo ano, o Comitê Olímpico Brasileiro concedeu a Clodoaldo o Troféu Hors Concours, que é a maior honraria do Prêmio Brasil Olímpico. Somente o paraolímpico e mais dois jogadores de futebol o Ronaldo, fenômeno, e Ronaldinho Gaúcho, são os únicos a serem premiados com o título.
Clodoaldo, como a natação surgiu em sua vida ?
Comecei a praticar esporte aos 16 anos, depois de fazer quatro operações.
Conheci a natação por indicação médica, para que eu pudesse me reabilitar. me apaixonei e não parei mais. Em 1998, eu já participava do meu primeiro campeonato nacional, de lá trouxe minhas primeiras medalhas, que foram de ouro.
Como foi seu início de carreira ?
Tive dificuldades, pois sou de uma família muito humilde, mas não desisti por causa disso. Procurei escutar o que me diziam os tecnicos.
Quais as maiores dificuldades que enfrentou ?
Como a gente era muito pobre, muitas vezes não tinha nem o que comer em casa. Mas o esporte veio me ajudar a conhecer um outro mundo e me incluir mais ainda na sociedade. Muitas vezes a maior dificuldade era chegar até o treino por causa da minha deficiência e também do dinheiro.
Quais os limites físicos impostos pela sua deficiência ?
Tenho paralisia cerebral. No parto de minha mãe houve falta de oxigenação. Isso afetou os movimentos das minhas pernas e trouxe uma pequena falta de coordenação motora. Algumas pessoas confundem paralisia cerebral com deficiência mental, por isso é importante frisar que não tenho nenhum problema mental.
Enfrentou algum tipo de preconceito ?
O preconceito sempre acontece, mas sempre soube sair da situação. O nosso país é de terceiro mundo, então temos algumas dificuldades como as adaptações para as pessoas com deficiência o que torna a acessibilidade desta camada da sociedade mais difícil. Na educação, também percebemos a falta de convívio das crianças que não têm deficiência com as que tem. Então encontramos o preconceito por ai. Acho que tudo o que é diferente causa impacto, mas com um tempo, depois que as pessoas retiram a imagem de “coitadinhos” ou outra similar e percebem que as pessoas com deficiência são capazes de tudo, fica tranqüilo. O processo de reconhecimento do deficiente no mercado de trabalho é complicado, na educação também é devagar e no esporte, agora que está tomando outro rumo. Então ainda temos muito que buscar.
Quando percebeu que poderia competir em um nível tão alto ?
Ao obter bons resultados no Brasil. Logo comecei a sonhar alto e me dedicar cada vez mais aos treinamentos. Na minha primeira participação em Jogos Paraolímpicos, que foi em 2000, em Sydney, eu ganhei três pratas e um bronze. Treinei muito até chegar em Atenas, pois tinha a meta de melhorar minhas marcas.
Você é um fenômeno do esporte, ganhou diversas medalhas olímpicas, é detentor de recordes mundiais, acredita que tem o reconhecimento que merece ?
Tenho muito reconhecimento e estou feliz com ele. No entanto, vale lembrar que às vezes penso que um olimpico ou um jogador de futebol com tantos títulos como os que tenho tem um reconhecimento bem maior. O esporte paraolímpico é novo no Brasil e no mundo.
Fico feliz de ser ídolo, mas precisamos de mais reconhecimento, não só eu, mas amigos meus que têm muitos títulos e não são reconhecidos.
Você recebeu inumeras homenagens, quais as que mais te emocionaram ?
O título de Melhor Paraolímpico do Mundo, que ganhei em 2005 e a Jóia de JK.
Quais foram as pessoas que mais contribuiram para a sua evolução como atleta ?
Minha família sempre esteve comigo. Hoje tenho meu técnico me ajudando muito e além de ser um grande profissional é um grande amigo.
Qual sua maior alegria no esporte ? E a maior tristeza ?
É poder estar sempre perto de pessoas que gosto e de fazer o que gosto. Acho que não tenho tristeza. No entanto é bom confessar que passar pela reclassificação durante o Mundial de Natação Paraolímpica, que ocorreu na África no ano passado, foi algo muito decepcionante e triste.
O que sentiu após assombrar o mundo com a sua performance nas Paraolimpíadas ?
Continuo a mesma pessoa, só que agora tenho resultados. Acredito que os atletas e tecnicos respeitam mais o Brasil, não só por causa dos meus resultados, mas por causa dos resultados da natação paraolímpica brasileira, que vem melhorando a cada ano que passa.
Tenho grandes amigos no exterior, alguns são meus adversários.
Quem te deu o apelido de “Tubarão Paraolímpico” ?
Minha assessora, Gisleine Hesse. Achei legal ! Mas ela disse que devo uma grana alta pra ela (Rs…).
Quem foi sua referencia na natação ?
Meus adversários e os olímpicos. Passava horas assistindo fitas de natação e vendo o movimento de todo mundo. Assim aprendi muita coisa. Gosto muito do Gustavo Borges.
