E agora, Brasil?

De O GLOBO
Por NELSON MOTTA
Tantos sentimentos misturados, ódio, amor, nobreza, baixeza, orgulho, vergonha, coragem, covardia, esperança, descrença de ser brasileiro nesse momento da nossa História
Ninguém diz melhor do que Roberto Carlos sobre esses dias de risos e lágrimas que vivemos: são tantas emoções… Tantos sentimentos misturados, ódio, amor, nobreza, baixeza, orgulho, vergonha, coragem, covardia, esperança, descrença de ser brasileiro nesse momento da nossa História.
Muitas vezes, desde a ditadura, amaldiçoei a sina de ser brasileiro, mas algumas vezes, como agora, é um privilégio viver esse momento de grandiosa vitória popular, movida pelos melhores sentimentos. Depois de passarmos pela beira do abismo de uma derrota que parecia inevitável, veio a surpresa que valoriza e engrandece a vitória inesperada. Não fomos só testemunhas, mas protagonistas desse movimento que emocionou o mundo e orgulhou o Brasil.
Muita emoção e orgulho de fazer parte dos 70+ que, enfrentando todas as dificuldades, foram decisivos para a virada vitoriosa, nós não votamos para nós, mas para nossos filhos e netos. Ao mesmo tempo foram os mais jovens e rebeldes que puseram o bloco na rua, iniciando e multiplicando manifestações monumentais em todo o Brasil, que também foram decisivas. A vitória de Lula foi uma derrota do etarismo e do preconceito contra os velhos.
O humor também foi muito importante, os melhores humoristas, Fábio Porchat, Marcelo Adnet, Rafael Saraiva e outros, todos os humoristas contra o bolsonarismo, ou não seriam humoristas. Claro, não há humoristas de direita. Não há humor fascista. Nem humor bolsonarista, a não ser os involuntários. Eles contribuíram muito, pelo riso, pelo ridículo, pelo grotesco, para desmascarar e desmoralizar os adversários e alegrar as tropas.
Não foram só os humoristas profissionais que contribuíram, também brilharam os anônimos que criaram milhares de memes que ridicularizaram o bolsonarismo com piadas e deboches que faziam milhões gargalharem nas redes sociais, entre eles milhões de eleitores indecisos. O humor é arma mortal, machuca mais que um soco: nada resiste ao ridículo público. O New York Times publicou os nossos dez melhores memes e exaltou o humor brasileiro. É verdade, um talento nosso, sem ele não seríamos brasileiros.
Ao mesmo tempo, é cada vez mais clara a separação entre uma direita legítima e democrática de um bolsonarismo selvagem que não respeita a Constituição: queria mudá-la, mas foi atropelado pela vontade popular. Para a direita, a fuga de Flávio é vergonhosa, mostra sua incapacidade de liderar, mas para os bolsonaristas é heroica. Não é provável que a direita brasileira se sujeite ao comando de Flávio em Miami. Novas lideranças de direita, conservadoras mas não bolsonaristas, estão surgindo e vão ser importantes nos debates democráticos no Congresso, isolando o bolsonarismo, que cada vez parece mais uma seita do que um movimento político.
Muita gente votou em Lula a contragosto, para evitar o pesadelo de uma vitória bolsonarista. Com Jair preso, Eduardo e Flávio fugitivos, restam Carlos e Michelle no Senado e o garboso Jair Renan na Câmara. Parece pouco para a seita sobreviver.

