Fuga de Flávio Bolsonaro após derrota era pedra cantada

De O GLOBO

Por BERNARDO MELLO FRANCO

Promessa de ‘resistir ao caos e organizar a oposição’ foi só conversa para despistar a polícia

No dia seguinte à derrota, Flávio Bolsonaro declarou: “Para resistir ao caos, vou organizar a oposição”. Parecia discurso político, mas era conversa para despistar a polícia. Poucas horas depois, o senador dava início a uma operação de fuga. Abandonou o país e foi se esconder sob as asas de Donald Trump.

A revoada para os Estados Unidos coroa uma incrível sequência de vexames e trapalhadas do ex-presidenciável. Na sexta à noite, Flávio tropeçou na própria petulância ao chamar de “nove dedos” o adversário mutilado num acidente de trabalho. Repreendido como um moleque, foi obrigado a se desculpar diante de milhões de telespectadores.

No domingo, o filho de Jair se deixou filmar em clima de festa, quando projeções estatísticas já indicavam a virada de Lula. Mais tarde, recusou-se a reconhecer o resultado e pediu a anulação das eleições, passando atestado de mau perdedor.

A debandada para os EUA honra o histórico da família. O patriarca inaugurou a tradição em 2022, ao se escafeder do país para não passar a faixa ao sucessor. Três anos depois, o capitão usou um ferro de solda para tentar se livrar da tornozeleira eletrônica. O plano fracassou, e ele acabou numa cela da Papudinha.

Eduardo, o Zero Três, foi mais competente que o pai. Largou o mandato de deputado e se mandou para os EUA antes de entrar na lista da Interpol. A prática ainda se disseminaria entre aliados do clã. De Carla Zambelli a Alexandre Ramagem, os bolsonaristas se especializaram em cruzar a fronteira para escapar do alcance da lei.

A fuga de Flávio era pedra cantada. A dois dias do segundo turno, Eduardo avisou que o irmão deveria sair do país em caso de derrota. Sabia que a alternativa era responder, sem foro privilegiado, a suspeitas robustas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

No último discurso em solo brasileiro, o senador prometeu cumprir a ordem judicial e entregar os passaportes. “Nunca pensei em sair do país”, assegurou. O que Flávio diz não se escreve, mas a fala ficará para a posteridade como símbolo de sua capacidade de mentir de cara limpa. Enquanto os patriotas bradavam em sua defesa, o ex-presidenciável driblou a polícia e saiu de fininho.

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