Nova fase da Carbono Oculto aproxima Corinthians do PCC e dos rolos do Master

A terceira fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Operação Crédito Oculto e deflagrada na manhã desta quinta-feira (24) pelo GAECO do Ministério Público de São Paulo, em conjunto com a Receita Federal, colocou novamente o Grupo Genial, administrador das contas do estádio do Corinthians, no centro de uma investigação sobre estruturas financeiras utilizadas pelo crime organizado.

Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, executivo do Banco Genial, seus irmãos André e Bruno Tupinambá e o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, dono da Entre Investimentos e delator nas investigações relacionadas ao Banco Master.

Conhecido como “Mineiro”, Freixo admitiu, em sua colaboração, ter atuado em operações financeiras a pedido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo a Polícia Federal, a Entre Investimentos enviou, ao longo de 2025, US$ 12,33 milhões ao fundo americano Havengate Development Fund LP.

As transferências são investigadas por sua relação com o financiamento de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro, de acordo com a PF, reforçaram a ligação dos repasses com a produção do filme.

Freixo também chamou a atenção dos investigadores por ter registrado 570 premiações em loterias entre janeiro de 2020 e junho de 2025.

A Entrepay, instituição de pagamentos do Grupo Entre, foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em março deste ano.

A Entre Investimentos figurava entre suas controladoras, assim como o próprio Freixo, cujos bens foram tornados indisponíveis em razão da medida.

A investigação deflagrada nesta quinta-feira apura a utilização de fundos de investimento, empresas de fachada e operações financeiras para ocultar os verdadeiros controladores da Tobras Distribuidora de Combustíveis Ltda., conhecida como Terrana.

Mais de R$ 120 milhões, de acordo com o Ministério Público, teriam circulado por empresas e contas de passagem antes de chegarem à estrutura responsável pela aquisição da distribuidora.

O GAECO também aprofundou as investigações sobre a utilização de fundos de investimentos para ocultar a propriedade de imóveis multimilionários atribuídos aos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”.

Segundo os investigadores, o modelo seria uma continuidade de estruturas anteriormente mantidas com a REAG Investimentos, que administrava fundos hoje sob suspeita.

A apuração sustenta que, após a saída da REAG, parte dessas estruturas teria sido reorganizada por outras instituições do mercado financeiro.

É nesse contexto que aparece o Banco Genial.

De acordo com os promotores, o Banco Genial “se ofereceu como estrutura financeira fraudulenta para mascarar a ocultação dos valores que financiaram a compra, bem como ocultar os seus reais proprietários e em contraprestação seria remunerado pelos instrumentos contratuais dissimulados constituídos formalmente para financiar o negócio jurídico”.

Ainda segundo o Ministério Público, o empresário Paulo Narcélio Simões do Amaral “emprestaria a sua imagem à negociação para garantir perante os vendedores e terceiros a legitimidade do negócio jurídico”.

A investigação aponta que Narcélio teria emprestado seu nome a duas holdings utilizadas na aquisição da Terrana e na ocultação de imóveis.

Uma das estruturas investigadas envolvia o fundo Radford, posteriormente transferido para administração e custódia do Banco Genial.

A Usina Itajobi, apontada pelos investigadores como controlada pelos empresários investigados, teria recebido ainda R$ 20 milhões da Entre Investimentos, de Antonio Freixo.

Armando Mendonça, Augusto Melo e Osmar Stabile

E há uma conexão adicional, e bastante relevante, com o Corinthians.

Investigadores identificaram movimentações que somam R$ 940 mil entre a Entre Investimentos e a Wave Intermediação de Negócios, empresa que aparece em diferentes investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro.

A Wave é velha conhecida dos leitores deste Blog.

No inquérito do caso Vai de Bet, ela apareceu como uma das empresas utilizadas no caminho percorrido pelo dinheiro retirado do Corinthians por meio da comissão de intermediação investigada pelo Ministério Público.

A Rede Social Media Design recebeu R$ 1,4 milhão do Corinthians.

Desse total, R$ 1,042 milhão foi encaminhado à Neoway Soluções Integradas.

A Neoway, por sua vez, transferiu R$ 1 milhão para a Wave em duas operações, de R$ 600 mil e R$ 400 mil.

Na sequência, a Wave repassou R$ 874.150 à UJ Football Talent, empresa que aparece na investigação como destino dos recursos desviados.

É a mesma empresa utilizada por Haroldo Dantas, presidente do Conselho Fiscal do Corinthians, advogado pessoal do presidente Osmar Stabile, para desviar jogador do Corinthians para o Santos.

O Blog do Paulinho publicou ainda que, entre 26 e 28 de março de 2024, a Wave transferiu R$ 13,6 milhões à Victory Trading, outra empresa inserida no emaranhado investigado pelas autoridades.

Na denúncia do GAECO, a Wave é descrita como empresa que tinha como sócio formal um motoboy sem capacidade financeira compatível com os milhões movimentados.

Policiais também constataram que ela não funcionava nos endereços cadastrados.

Ou seja, uma empresa que apareceu no percurso do dinheiro retirado dos cofres do Corinthians no caso Vai de Bet volta a surgir, agora, ligada por movimentações financeiras ao grupo de Antonio Freixo, um dos alvos da operação que investiga estruturas financeiras relacionadas ao Banco Genial.

Não foi por falta de aviso.

Em fevereiro deste ano, antes mesmo da contratação, o Blog do Paulinho revelou que o Corinthians negociava a entrada da Genial Investimentos na estrutura do Arena Fundo FII, responsável pelas contas do estádio de Itaquera.

Naquela ocasião, este espaço já alertava que a instituição aparecia no ambiente investigativo da própria Operação Carbono Oculto.

Mesmo assim, o negócio avançou.

Em abril, após a liquidação da REAG, a Genial Investimentos CTVM assumiu a administração fiduciária dos fundos vinculados à Arena, enquanto a Asarock Asset Management passou a exercer a gestão.

Tudo indica ter ocorrido apenas uma mudança formal, porque executivos e funcionários da REAG, também investigada por ligações com o PCC, foram mantidos pelas novas empresas.

Em maio, valores relacionados a um fundo administrado pela Genial foram alcançados por medida cautelar fiscal ligada à Operação Carbono Oculto.

Em agosto, o Blog revelou que o Banco Central aplicou multa de R$ 21,56 milhões ao Banco Genial em processo envolvendo irregularidades em operações de câmbio, controles internos e comunicações de movimentações suspeitas ao Coaf.

Executivos também foram punidos.

Segundo as informações divulgadas à época, o processo envolvia 2.038 operações de câmbio, que somaram cerca de US$ 1,2 bilhão, além de centenas de operações que, segundo o Banco Central, não teriam sido comunicadas adequadamente ao Coaf.

Enquanto tudo isso acontece, a Genial continua ocupando função relevante na estrutura financeira da Arena de Itaquera.

O informe mais recente do Arena Fundo, referente às contas de agosto e protocolado em setembro, registra R$ 35,79 milhões no caixa do fundo.

O mesmo documento aponta R$ 273,5 mil devidos à Genial em taxas de administração e informa que uma dívida do Corinthians, anteriormente apresentada em valor superior a R$ 100 milhões, passou a constar como R$ 569,6 mil, sem explicação detalhada, nos informes divulgados, para tamanha alteração.

As demonstrações financeiras do Fundo seguem sem auditoria há anos.

O Corinthians, que ligou-se a essas empresas na gestão Duílio “do Bingo”, mas mascarou-as, sob nova roupagem, sob a administração Stabile, precisa explicar quais critérios de compliance e diligência foram utilizados para escolher a Genial, que já figurava no ambiente investigativo da Operação Carbono Oculto no momento da contratação.

A questão se torna ainda mais relevante diante das revelações desta quinta-feira: segundo o próprio GAECO, não se investiga apenas uma instituição financeira que eventualmente prestou serviços a terceiros suspeitos, mas a possível participação da estrutura do Banco Genial na engenharia financeira utilizada para ocultar a origem do dinheiro e os verdadeiros proprietários de negócios atribuídos ao grupo investigado.

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