Gaviões da Fiel, o Presidente e o bolsonarismo

Alexandre Domênico Pereira, vulgo Alê, presidente dos Gaviões da Fiel, pediu votos para Thiago Surfista, candidato a deputado federal pelo PL, partido de Jair Bolsonaro.
O apoio aproxima a organizada do campo político da extrema direita e levanta uma questão concreta: como compatibilizar a iniciativa com a independência exigida pelo estatuto?
Não causa surpresa a escolha pessoal do mandatário.
Sua gestão é marcada por comportamentos elogiados pela direita, como a truculência diante de jornalistas e a manutenção de históricas discriminações contra mulheres na entidade, além do apoio à candidatura de um ex-presidente do Corinthians que, segundo investigações do MP-SP, manteve relações com personagens ligados ao crime organizado.
Há também evidências de possíveis contrapartidas políticas, como o patrocínio da Vai de Bet e a administração, por integrantes da torcida, de camarote na Arena de Itaquera.
O pedido de votos foi publicado em 8 de setembro.
Alê sustentou que o candidato passou por uma sabatina e recebeu aprovação do Conselho Deliberativo.
O fundador Chico Malfitani manifestou contrariedade.
Faustino Capá, presidente do Conselho Deliberativo, por meio de nota, desmentiu a versão e listou os nomes dos candidatos efetivamente ligados à torcida.
O artigo 4º, inciso VII, do estatuto publicado pelos Gaviões determina atuação independente e fiscalizadora, “totalmente imune à política e interesses de terceiros” que pretendam utilizar a entidade em benefício próprio ou alheio.
O inciso IX inclui entre os objetivos da entidade a promoção da democracia e dos direitos humanos.
Apesar de ter afirmado que se manifestava como pessoa física, Alê citou os Gaviões e estava trajado com indumentária da organizada, o que, por óbvio — e muito provavelmente de maneira deliberada —, induz o eleitor à percepção de que existe apoio institucional da entidade.
Ao invocar uma suposta aprovação do Conselho, o próprio presidente apresenta uma justificativa institucional para o pedido de votos.
Diante desses fatos, os Gaviões da Fiel precisam se posicionar de maneira clara e contundente sobre o assunto.
Independentemente disso, o episódio representa uma mancha — quase verde, no sentido de jogar a favor do adversário — na história da agremiação.
À exceção dos conhecidos episódios de violência, os Gaviões construíram parte relevante de sua identidade na defesa de pautas ligadas às camadas menos favorecidas da população, à democracia e aos direitos sociais.
São princípios que, em diversos aspectos, colidem frontalmente com práticas e discursos associados ao bolsonarismo.
Por isso, não se trata apenas de discutir a preferência partidária pessoal de seu presidente.
Quando o principal dirigente da entidade pede votos a um candidato do PL utilizando símbolos dos Gaviões e ainda invoca uma suposta chancela institucional, o problema deixa de ser individual e passa a atingir a imagem, a história e os valores que a própria torcida afirma representar.
Abaixo o comportamento extremista do Presidente dos Gaviões da Fiel diante de um jornalista

Quem é Thiago Surfista?
Thiago Surfista, vice-prefeito de Guarulhos e candidato a deputado federal pelo PL, percorreu um caminho politicamente elástico.
Disputou eleição pelo PCdoB em 2012, pelo PRTB em 2016, pelo PSD em 2020 e 2022 e pelo Novo em 2024.
Agora, pede votos pelo partido de Jair Bolsonaro.
A chegada ao PL teve direito a fotografia com Valdemar Costa Neto e Lucas Sanches.
A filiação foi anunciada em junho de 2025.
Mudou bastante a companhia política.
As decisões tomadas no exercício de cargo público, porém, continuam merecendo explicações.
Uma delas envolve a Autorização Ambiental nº 35/2023, referente a imóvel localizado na Estrada do Capão Bonito, na Vila Any, em Guarulhos, no processo administrativo nº 45.200/2021.
O documento traz o nome de Thiago A. L. Fonseca no campo destinado ao secretário de Meio Ambiente.

Em 7 de outubro de 2024, o Comunique-se nº 24651/2024, dirigido a Carlos Nascimento Santos, apontou intervenções além da área autorizada e a supressão de 209 árvores sem autorização.
Também registrou desperdício da camada fértil do solo.
O documento informou que seria emitido auto de infração.

Em 22 de janeiro de 2025, o Memorando nº 27/2025-SM solicitou a publicação do cancelamento da autorização e do termo de compromisso ambiental.
Mencionou ausência de anuência satisfatória da administração da APA da Várzea do Rio Tietê e obras executadas em desacordo com o projeto aprovado.

Há outro ponto que exige transparência.
Em 2024, Thiago declarou à Justiça Eleitoral R$ 315 mil em bens: um apartamento de R$ 230 mil e um automóvel de R$ 85 mil.
Dois anos após, em 2026, informou patrimônio de R$ 1,43 milhão: dois apartamentos, um de R$ 230 mil e outro de R$ 1,2 milhão.
Os valores foram conferidos diretamente nas declarações apresentadas à Justiça Eleitoral em 2024 e 2026.
2024

2026

A diferença é de R$ 1,115 milhão, crescimento de aproximadamente 354% sobre o patrimônio declarado anteriormente.
Urge esclarecimento.
Ao se posicionar no campo da extrema direita, Thiago Surfista, por óbvio, distancia-se dos valores históricos dos Gaviões da Fiel.
Independentemente de quem ocupe momentaneamente a presidência da organizada, os Gaviões nasceram das arquibancadas e da classe trabalhadora e construíram parte importante de sua história defendendo democracia, direitos sociais e os interesses das parcelas menos favorecidas da população.
São princípios diametralmente opostos a boa parte das práticas e do projeto político representado pelo bolsonarismo.
Por isso, o apoio de Alê não constitui apenas uma escolha eleitoral pessoal.
Ao associar os símbolos e o nome dos Gaviões a essa candidatura, o presidente coloca a entidade ao lado de um campo político que, historicamente, pouco ou nada representa aqueles que deram origem, força e identidade à própria torcida.

