Trump diz que é dono da América Latina

Do ESTADÃO
EDITORIAL
EUA anunciam que são potência imperial com domínio incontestável sobre a região, cobiçada pela China. Com isso, tratam a América Latina não como parceira, mas como vassala
O Departamento de Estado dos EUA acaba de prestar um serviço involuntário à franqueza. Em um vídeo sobre a Doutrina Monroe, descreve como aquela advertência contra a recolonização das Américas teria evoluído até se tornar uma “estrutura de domínio regional”. A peça celebra os EUA no palco global como “potência imperial”, alude à sua pretensão de soberania hemisférica e culmina na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro. O presidente Donald Trump aparece como campeão dessa retórica, proclamando que o domínio americano no Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”.
A honestidade é valiosa; a genealogia, fraudulenta. A doutrina lançada em 1823 pelo então presidente James Monroe (1817-1825), segundo a qual “a América” era “para os americanos”, buscava dissuadir impérios europeus de recolonizar as novas nações e ameaçar uma república ainda frágil. Dizia o que a Europa não deveria fazer. Não conferia a Washington o direito de administrar os vizinhos. O sucessor de Monroe, John Quincy Adams, defendeu a exclusão das potências externas, mas rejeitou que os EUA ocupassem seu lugar. O mandato para as intervenções americanas na região foi reivindicado só posteriormente, sobretudo por Richard Olney, secretário de Estado do governo de Grover Cleveland (1893-1897), e Theodore Roosevelt, presidente de 1901 a 1909. O vídeo do governo Trump, como lhe é habitual, distorce informações para sustentar que seu ponto de vista estaria inscrito na Doutrina Monroe original, o que não é verdade.
A manipulação histórica encobre uma oportunidade contemporânea. Depois de anos em que Washington tratou a América Latina como apêndice de crises migratórias e do narcotráfico, muitos governos latino-americanos desejam maior presença americana. A região guinou à direita e a cooperação pode oferecer inteligência e capacidade operacional a países acossados por facções criminosas. Nenhum desses sinais, porém, autoriza Trump a concluir que a região aceita tutela. A América Latina quer cooperar com os EUA, não pertencer a eles.
Parceiros podem ser pressionados e convencidos, mas conservam interesses próprios e espaço para divergir. Na relação de vassalagem projetada por Trump, Washington define quais governos, contratos e vínculos externos considera admissíveis, e a discordância vira insubordinação. Os EUA ainda dispõem de força excepcional para impor essa hierarquia. Capturaram Maduro, arrancaram concessões comerciais de vários países e afastaram empresas chinesas de ativos sensíveis. A coerção funciona sobretudo contra países muito dependentes. Mas os resultados imediatos dizem pouco sobre a solidez desses alinhamentos. Um governo pode ceder hoje e procurar amanhã outra fonte de crédito, outro mercado ou um seguro contra a próxima extorsão americana.
A China torna essa limitação visível. Pequim se enraizou na América do Sul comprando soja, carne, cobre e lítio, enquanto financiava obras que Washington não quis ou não conseguiu bancar. Mais de 30% das exportações brasileiras destinam-se hoje à China, relação que se aprofundou até sob Jair Bolsonaro, aliado ideológico de Trump. Governos conservadores – como o de Javier Milei, na Argentina – podem compartilhar as preocupações americanas e ainda se recusar a abandonar o mercado que sustenta seus produtores. O Brasil, por sua escala e recursos, pode negociar com ambas as potências sem aceitar alinhamento com nenhuma.
Isso não torna inofensiva toda presença chinesa. Controle de portos, redes de dados, telecomunicações ou instalações de uso dual criam riscos legítimos. Os EUA têm razões para disputar esses ativos e devem oferecer alternativas. O financiamento americano ao projeto de terras raras da Serra Verde, em Goiás, mostra como capital, tecnologia e segurança podem convergir em benefício recíproco. Ordens para que os vizinhos fechem a porta à China pouco valem sem opções capazes de competir com as ofertas chinesas.
Washington possui vantagens que Pequim dificilmente reproduzirá: proximidade, lastro financeiro, instituições democráticas, vínculos humanos e valores comuns construídos por gerações. Trump as dilapidará se medir influência pelo número de governos que obedecem sob ameaça.

