Globo sentiu o impacto da concorrência na Copa

Da FOLHA
Por MAURICIO STYCER
- Emissora omite informações sobre jogos e exagera em descontração e patriotada
- Cobertura que rede se orgulha de fazer desde 1970 sofreu abalo significativo
Tradição na grade da Globo, o programa Central da Copa se propõe a resumir, de forma descontraída, os principais acontecimentos do dia no Mundial. Na versão de 2026, a atração é comandada por um trio formado pelo jornalista Tadeu Schmidt, o comediante Fabio Porchat e a jogadora Tamires.
O programa está especialmente estranho neste ano. Num estúdio gigantesco, quase inteiramente vazio, os três se mostram perdidos, abandonados, comentando e fazendo piadas protocolares sobre jogos, lances e gols. O espaço ocioso parece gritar que está faltando alguma coisa ali.
Essa desproporção entre o gigantismo aparente do estúdio e o conteúdo insosso do Central da Copa é exemplar dos problemas que a Globo está vivenciando neste Mundial. Pela primeira vez, a emissora enfrenta uma concorrência dura e não dispõe de armas adequadas para enfrentá-la.
Por economia, a Globo reviu em 2022 o acordo que tinha com a Fifa por todos os direitos da Copa até 2030. A emissora abriu mão da exclusividade em plataformas digitais e comprou os direitos de exibição de apenas a metade dos jogos do Mundial de 2026.
O corte de custos se revelou erro estratégico no médio prazo. Entre as consequências, abriu espaço para a agência LiveMode, que comprou as 104 partidas desta Copa para exibição na CazéTV, no YouTube.
A cobertura que a Globo se orgulha de fazer desde 1970 sofreu um abalo significativo. Tanto pelo que expõe quanto pelo que esconde, a emissora está deixando claro que sentiu o golpe.
Ainda que exiba números bem robustos de audiência, a Globo empurrou milhões de espectadores, jovens e não tão jovens, para uma plataforma digital concorrente. Por outro lado, adotou a postura de minimizar a importância dos acontecimentos ocorridos fora do seu espectro de cobertura.
É sintomático que os telejornais da emissora divulguem diariamente uma “Agenda Globo” da Copa, e não a agenda completa dos jogos. Na quarta (24), dia de Brasil x Escócia, por exemplo, houve seis jogos no Mundial, mas a agenda do jornal Hoje só expôs os dois que a emissora exibiria.
Na partida, o narrador Everaldo Marques se viu obrigado a ler mensagens provocativas, típicas de criança chateada, sobre a concorrente CazéTV, cuja transmissão tem delay de quase 15 segundos: “No jogo do Brasil ninguém quer gritar gol atrasado. Fique antenado”.
Evê, como é chamado pelos fãs, foi contratação acertada da Globo para modernizar as transmissões, dialogar com o espectador jovem e dar adeus a Galvão Bueno. Mas a emissora foi atropelada pela onda “cazeísta”, que leva a informalidade ao extremo.
Na cobertura antes dos jogos da seleção, a Globo tem redobrado o esforço para parecer jovem e descontraída. A mistura de patriotada com palhaçadas expõe repórteres ao ridículo e constrange espectadores.
Na farra das bets, que ocupam todo espaço possíveis, a Globo adota postura péssima, como se o problema não lhe dissesse respeito. O grupo não apenas promove como é parceiro de empresas de apostas.
A Globo não quer enxergar que, hoje, se render ao que os concorrentes fazem de pior não é o caminho que vai mantê-la conectada com o espírito do tempo. O momento pede ousadia, transparência e criatividade.

