Vorcaro desnudou uma elite deslumbrada, cafona e corruptível

Do ESTADÃO
Por FABIANO LANA
Dezenas de agentes públicos aceitaram jantares, favores, diárias, viagens, contratos, subornos e coisa muito pior
Uma pergunta pode ser feita de maneira especulativa: “existe alguém, entre os poderosos do Brasil, que, ao ser assediado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, recusou as generosas ofertas recebidas”? Se existe, e esperamos que sim, ainda não a conhecemos. Porque, à primeira e à segunda vista, o que vemos são dezenas de agentes públicos que aceitaram jantares, favores, diárias, viagens, contratos, subornos e coisa muito pior que talvez ainda seja revelada.
Havia uma espécie de estilo nas operações do escroque mineiro. Como se houvesse uma estética Vorcaro na maneira como agia. São eventos em Nova York, Paris, Lisboa, resorts junto à neve, degustação de charutos, tudo bancado pelo banqueiro, que se jactava disso com suas namoradas louras falsas. É como se Vorcaro tirasse um véu sobre a nossa elite e descobríssemos uma espécie de complexo de vira-latas. No sentido de que somos pequenos, mesquinhos, loucos para sermos adulados e… financiados.
A desconfiança é a de que Vorcaro, mais do que mafioso, seja também um psicólogo profundo, conhecedor da alma humana. Sua tese seria de que cada um, mesmo os que detêm os grandes cargos, no fundo, são apenas pessoas deslumbradas e corrompíveis. Basta se aproximar da maneira certa e oferecer algo compatível com seus desejos: dinheiro, prestígio e mesmo um encanto cafona. Vamos repetir a pergunta: quem afinal disse não a tudo isso? Existe? Existiria?
Os envolvidos, em tese, são as pessoas que mandam no Brasil a partir das estruturas do Estado, seja Executivo, Legislativo ou Judiciário. Envolve gente de direita, esquerda, centro, da nova política, da velha política, populistas e até mesmo alguns reformistas. Aparentemente, ninguém resistiu. O caso Vorcaro revela uma espécie de peste moral epidêmica. Até para um autoquestionamento, e se fôssemos nós, o que faríamos? O problema é que não temos a oferecer, na maioria absoluta, o que ele queria: uma contrapartida em poder, proteção ou prestígio. Assim como as assombrações, os vorcaros sabem para quem aparecer.
O Brasil, por outro lado, tem algo que podemos chamar, até mesmo pejorativamente, de andar de baixo. Um país com renda média domiciliar inferior a R$ 3 mil. Uma taxa de informalidade no mercado próxima a 40%, gente que não se beneficia de qualquer direito trabalhista criado em Brasília. Onde se sofre com a mobilidade urbana insuficiente, transporte público ruim, falta de moradias, insegurança e preocupação constante com o futuro. Gente bombardeada todos os dias com esses acontecimentos vorcarianos. Essas são as pessoas com as quais, em tese, os envolvidos no caso Vorcaro deveriam se preocupar todos os dias, além de com si mesmos e seus luxos.
O que fica? Repúdio, horror ou um lamento por não estar lá no andar de cima a desfrutar dessas festas nababescas em lugares distantes? Vamos perguntar ao psicólogo Daniel Vorcaro, que prefere atender e ajudar apenas aos mais ricos e que neste momento encontra-se isolado em uma cela em Brasília, quem sabe por causa da ação dos que resistiram às suas tentativas de sedução.


O estado enorme, que muitos defendem, é isso em sua essência!